sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Capítulo VII - Cobrando favores de um pervertido


 Confiro o número da casa e o alívio trata de apagar o amargor dos quilômetros que ganhei na sola de minha bota. Morrem as hipérboles na memória e, olhando agora, pouco me incomodam essas três horas sob o vento gelado. Dou as costas para a casa rendendo-me ao desejo incontrolável de fumar enquanto analiso despretensioso a calçada do lado de lá; um morador de rua se encolhe trêmulo buscando abrigar-se do frio, enrolado a uma manta suja. Meu peito ofegante responde com suor gelado, sob o tecido, ao vento úmido que chegara sem aviso.
 "Frio e solidão, meu chapa. É o que tem pro jantar essa noite." Digo sentindo um misto de pena e de identificação, como se ele pudesse me ouvir. Pena e identificação? Auto-piedade. Resta então, apenas asco dessa sensação deprimente.
 Os curitibanos foram castigados por um calor incomum durante o dia e, agora, no dobrar da primeira hora da manhã, o frio impõe suas vestes. Eu, com o busto arfante de toda a caminhada, sofro com esses panos de inverno.
 O tabaco queima e  meu coração finalmente retoma o ritmo comum de trabalho. Prendo o cigarro por entre os lábios, apoio minhas mãos por sobre o muro baixo, jogo minhas pernas pra o outro lado e, sem notar onde exatamente faria meu pouso atrapalhado, acabo acomodando os saltos de minha bota por sobre as tulipas de Gregório. Um certo remorso me toma, do  tipo que provavelmente se sente ao ouvir o alarme do banco disparar antes de conseguir abrir o cofre.
 "Ele vai querer me matar..."
 Cruzo o restante do Jardim divagando comigo mesmo sobre a peculiaridade de um homem como Gregório ter como hobbie a jardinagem. E ainda mais peculiar, definitivamente estúpido, é o fato dele manter costumes como este: Ajoelho-me em frente ao carpete, já diante da porta dos fundos, e puxo debaixo do mesmo a chave que me dá acesso a sua pequena moradia.
 Nota-se, logo de primeira vista, que a casa é bem antiga. Os arcos na varanda da entrada, os muros baixos, o portão de aço enferrujado com detalhes talhados, toda ela é composta por uma arquitetura de outro tempo, sem a pretensão comum atual de fazer-se ilha. Cercar-se de arames e muros em prol de qualquer falsa segurança que acalma as almas temerosas do século XXI.
  A porta dos fundos coloca-me sob a luz da cozinha que Gregório deixa acesa para simular sua presença a qualquer um que não o conheça minimamente. Há um cheiro forte de charutos e cigarros pela casa. Latas de cerveja descansam por sobre o piso carpetado, cheio de manchas, que se estende da cozinha até a sala, acomodações estas divididas apenas pelos restos de uma parede derrubada.O relógio na parede da cozinha me diz que fazem mais de dezoito horas que não me alimento, e a fome, já a roer-me as vísceras, intensifica seus protestos. Na geladeira: Ovos, restos de um marmitex de sabe-se lá quando, várias latas de Brahma e, por sorte, um pacote de lasanha congelada que faz minha noite.
  Na sala, algo me chama atenção entre os sofás rasgados e a poltrona velha. Será? Não pode ser. Lá está, encostada ao suporte, um item inusitado cujos olhos não deito há anos. Seria mesmo ela? Aproximo-me do instrumento inteiramente surpreso. Ela está surradinha; o braço bem empenado e a madeira cheia de marcas de colisões desastrosas. Passo os dedos para tirar a poeira e a certeza se faz:
 "Não acredito." É a velha Les Paul de Gregório!
 Eu me lembro dos velhos churrascos na casa do Mike, onde Greg ligava essa belezinha e tocava aquele clássico Flamenco que ele adorava. Como se chamava? Busco pelo nome do compositor, pois algo me dá certeza de que não lembrarei do nome da música. A melodia vaga pela minha memória. Mantenho-me ferrenho no encalço do enigma, que parece fazer piada de meus esforços ao permanecer sob a sombra que o oculta. Incumbido pelo pior tipo de mistério - aquele que constrói-se debaixo de seu nariz, coberto pela camuflagem de nossa própria falta de tato e percepção - cruzo os cômodos da casa sem uma finalidade clara e, se não fosse pela preguiça que desanimou-me e desarmou o orgulho ferido que tinha-me como um títere em mãos, eu teria revirado toda a coleção de discos do Gregório até encontrar o maldito nome do compositor.
  Cansado, chego ao quarto de Gregório. Cortinas azuis, paredes vermelhas, uma cama grande e completamente desarrumada, mais latas de cerveja vazias e um cheiro fortíssimo de sexo. A vontade de me estirar em sua cama acaba aí. Há também um criado-mudo ao lado de sua cama contendo um maço de papeis, uma garrafa de whiskey pela metade e uma caixa de madeira. Um sorriso ganha-me as faces e acomoda-se por entre as maçãs de meu rosto involuntariamente.
 "Era tudo o que eu precisava."
 Pego a caixa e a garrafa, acomodo-as sobre a mesa de centro da sala. Sinto meus músculos relaxarem ao me esticar sobre a poltrona. A caixa de madeira guarda - como sempre - alguns charutos que não abro mão. Acendo-o sobre a chama do isqueiro. Mais um sorriso me estranha a face com o prazer nostálgico. "Use fósforos pra acender meus charutos se não quiser acabar com eles enfiados na bunda." Repito em voz baixa, comigo mesmo, a frase que Gregório dizia quando, desatento, acendia o charuto que me concedia, com o costume mecânico de acender cigarros.
 Agressivo, pervertido, desleixado, mas ainda assim, um sujeito extremamente sensato. Para mim e para os rapazes da antiga, ele sempre foi um sujeito sábio. Apesar de tudo, e mesmo com os anos que nossa amizade carrega, ainda guardo-o dessa forma na memória; um sujeito sábio, com certeza! Apesar de tudo.
 O sono me toma de leve. Afundo-me na poltrona de couro e tomo a última dose que a garrafa pode me oferecer. A sala permite que as luzes da rua deitem-se por sobre o seu piso e a luz da cozinha pisca por algumas vezes até se apagar. Meu corpo já está dormente, meus sentidos comprometidos; espero que o álcool me proporcione o sono que preciso.

                                                            

                                    
                                                  *              *              *


 Acordo de um sono sem sonhos com um grito. Um grito familiar que reconheço ser apenas uma recordação antiga a pregar-me outra peça com ajuda de Morfeu. Culpa e saudade, apenas.
 Quanto tempo dormi? Meus sentidos me dizem que não mais do que alguns minutos, entretanto, estou sóbrio novamente. O relógio da cozinha mais uma vez me traz à realidade das rotinas, algo que já não estou mais familiarizado, e revela o verdadeiro número de horas que estive entregue ao subconsciente. Duas horas de sono ininterruptas, algo incomum pra mim. O ponteiro dos minutos mal se move quando ouço, finalmente, o barulho do portão. Acendo outro charuto e observo Gregório abrir a porta da frente, entrar, trancá-la novamente. A certeza de que ele ainda não me viu, sob a penumbra, proporciona-me o tipo de prazer que se tem um jogador amador de xadrez, ao ver seu oponente, exímio na arte que lhe falta, fazer um movimento que lhe renderá a vitória.
 "Se você comeu a minha lasanha congelada, está encrencado, rapaz." Agora imagine minha decepção ao ouvi-lo desmantelar minha certeza.
 "Por onde tem andado, seu miserável?" Pergunto ao vê-lo cruzar a sala, pegar uma cerveja e se sentar no sofá a minha frente.
 "Porra! Pelas redondezas, fazendo pequenos trabalhos de jardinagem, ganhando o suficiente pra me alimentar, pagar as contas da casa, e sustentar as prostitutas."
 Sorrio. Como eu disse, um pervertido.
 "E você, Richard? Não nos vemos há anos."
 "Eu tenho estado por aí. 'Em toda parte e em lugar nenhum.'"
 Ele ri com sua voz grave e rouca, levanta a lata de cerveja e repete nosso velho lema sob um interpretação eloquente!
 "'Em toda parte e em lugar nenhum!'" Sua risada e voz preenchem todo o local."Que tempo eram aqueles!"
 Termina a lata em um último gole, amassa e lança-a para qualquer canto da sala. Sua expressão torna-se grave ao se levantar e dar-me as costas em direção à cozinha.
 "Que merda de cicatrizes são essas nos seus pulsos?"
 "Eu não tentei me matar, se é o que pensa..."
 "Eu reconheço cicatrizes de algemas, meu velho. É daquela noite?"
 "Infelizmente, mais uma lembrança."
 "A polícia te deu uma surra e te deixou livre? Não entendo." Perguntou confuso abrindo a geladeira.
 "Quem me dera tivesse sido a polícia."
 Por trás da porta da geladeira, abrindo mais um lata de cerveja:
 "Eu já sei sobre seu reencontro com Samuel..." Um silêncio se fez. "Eu passei trinta minutos no telefone com ele me dizendo que eu era cúmplice de tudo, que te defender era manchar minhas mãos com o sangue dele, e mais um monte de merdas!"
 "Você sabe que eu sempre achei isso besteira! Eu conheci aquele merda do Thomas! Aliás, hoje acho que todos conhecem. Eu sempre estive do seu lado, cara! Pelo que você fez por mim! Agora me diga, Richard, como diabos você quer que eu acredite na sua inocência depois de hoje?"
 Apago o charuto no cinzeiro e encaro-o nos olhos.
 "Eu não quero."
A decepção estampa-se no rosto de meu velho amigo.
 "Eu vim cobrar um favor."
Gregório entra no corredor e volta de seu quarto com o monte de folhas que vi sobre seu criado-mudo.
 "Eu sei." E diz jogando-as sobre meu colo. Um manual antigo de sua Panhead 1969.
 "Tá na garagem. Passei muito tempo trabalhando nela pra que ela pudesse voltar pra estrada. Tive que importar algumas peças também. Ela tá pronta. Pega a grana que deixei na cozinha  junto com as chaves e dê o fora. A policia já deve estar chegando." Diz entrando no banheiro.
 Pego o dinheiro, mil reais, mais as chaves da motocicleta.
 "Ei! Richard!" Ele grita lá de dentro. "Estamos quites. Faça-me o favor de nunca mais voltar."

sábado, 10 de março de 2012

Capítulo VI - Mergulho à pequena Atlântida de Mauro


 Desço do caminhão em Curitiba, com um número de telefone em mãos. O caminhoneiro disse se chamar Augusto, e deixou-me o número de seu celular, para o caso de eu mudar de ideia a respeito de seu convite para tomar uma cerveja e conhecer umas garotas. Sujeito simpático, o que delata os poucos anos vividos. Jovens. Costumam aprender a serem menos receptivos com o desenrolar da vida, e ela, sádica que só, guarda uma perversidade especial para os que não aprendem. Contudo, eu só sei disso devido à observação que fiz, por todos estes anos, dos desavisados. Eu mesmo não me lembro de um dia ter sido receptivo, de fato.
 Estive aqui algumas vezes, e conheço apenas os bairros nobres da Cidade devido às viagens que fiz, em sua grande maioria, a trabalho. Batel, Água Verde, Ecoville. Gregório se mudou pra Curitiba alguns meses depois que eu "deixei" esse trabalho e, desde então, a única coisa de que tenho certeza é que ele está em algum lugar entre os limites desse distrito, e conhecendo-o como um dia conheci, definitivamente não seria em nenhum destes bairros nobres. Rio comigo mesmo ao me lembrar da falta de aptidão para com qualquer estilo de vida que sugerisse manter suas camisas desencardidas e limpas de graxa e óleo. Porém, ainda assim, há alguns poucos lugares na cidade em que passamos durante as vezes em que viemos de motocicleta, juntos, para Curitiba. É, acho que conheço alguém que certamente sabe onde ele está.
 Cruzo alguns quarteirões buscando a placa certa. Entro na Rua Amazonas sem saber exatamente em que altura dela chegarei em meu objetivo, e isso se ele ainda existir, é claro. Já faz muito tempo. Ando mais alguns minutos até me deparar com um montante de motocicletas estacionadas dos dois lado da rua. Elas se estendem por vários metros e seus donos parecem ter um só objetivo: O bar de esquina. Os muros baixos, pintados de vermelho e amarelo, permitem que o som de "Old Man", na voz de um estranho qualquer, se propague pelo quarteirão, o que parece fazer com que muitos dos visitantes de coletes de couro ocupem as calçadas e bebam até mesmo em cima das próprias motocicletas. Cruzo vários destes "motociclistas bem sucedidos" e acendo um cigarro debaixo do estandarte, quase como uma bandeira hasteada, sustentando um escudo branco, atravessado, pela frente, por uma faixa marrom clara, com o nome do bar e, por trás, cruzado por duas espadas.
 Observo as Harleys estacionadas enquanto a brasa luta para chegar ao filtro. Dynas, Sportsters e Softais atuais em sua grande maioria. Uma ou outra Electra, também atuais, e três Fat Boys da linha especial de 2010. Contudo, algo no meio desse aglomerado de maquinas calouras me chama a atenção. Uma ShovelHead Bobber de - Santo Deus, mas que ano de ouro - 1969. Me aproximo dela e toco de leve o tanque preto com manchas bronze. Que dinossauro magnífico! Termino o cigarro, ainda invejando o Dono de tal alazão, e dirijo-me ao interior do bar.
 Atravesso o salão e encosto-me próximo à geladeira. Tendo notado que não há ninguém atrás do balcão em que me debruço, decido simplesmente aguardar. A lembrança de nossa primeira tarde aqui agarra-se fortemente aos lobos temporais de meu cérebro. Samuel, Gregório, Eu e o velho Zebu entramos em um briga boa com sete babacas aquela tarde. Tomamos uma surra terrível, mas nenhum de nós beijou a lona sem um belo sorriso ensaguentado estampado na cara. Além do mais, aquele cinquentão do Zé Burla quebrou o braço de um dos maricas em três lugares, isso antes mesmo de perder o primeiro dente. Mais uma vez sorrio ao lembrar daqueles três miseráveis no chão, juntos a mim, como se fossemos amigos de infância, tomando o maior cacete do século. Bons tempos. Ouvi dizer que Zebu morreu de enfarte há cinco anos. Aquele velho teimoso nunca tomava direito seus remédios. Mas era um bom homem.
 Tento evitar me perder no tempo, uma vez mais, observando as espadas penduradas horizontalmente na parede, todas apontadas para o mesmo lado, em seguida meus olhos correm até os copos pendurados de ponta-cabeça sobre mim e atento-me à uma gota de água que escorre-lhe de dentro até o limiar da superfície translúcida. Neste ponto ela se estica devagar, dependurada pela sutil ponte de hidrogênio. Ela depende disso para continuar intacta. É inútil tentar evitar atribuir-lhe vida, e até mais inútil lutar contra a tensão ao vê-la deslizar alguns milímetros pela superfície da borda de vidro. Vamos, vamos, você consegue! Ela se estica mais um pouco. Vamos, não morra, sua escrota! Você consegue! Tenta se estabilizar, com alguma dificuldade. Ainda se estica um pouco, mas finalmente fica estática. Veja só. Lá está ela; a gota, no limite de sua existência, insípida sim, mas apesar disso, jamais entregue à passividade.
 Eu sou a gota. Ela escorreu velozmente até o último circulo de seu próprio inferno. Não há mais lugar para ela no universo a não ser que ela sobreviva às circunstâncias, e imponha-se sobre a própria morte, de forma que possa se manter existindo, mesmo que de fronte para sua aniquilação. Estou profundamente orgulhoso de mim mesmo, mas estranhamente, de um eu-gota, jamais um eu-Richard. Um eu-Richard nunca foi digno de orgulho algum. Toco com o indicador no copo e a gota cai.
 "Pronto. Fim da crise existencial."
 "O que disse senhor?"
Estava tão distraído que mal pude notar a chegada do atendente.
 "Hã?" Tal resposta automática me escapa da garganta, esquiva às contenções comuns da consciência, e pede qualquer remendo imediato. "Eu disse que quero uma bebida, ainda servem a Santo Grau?"
 "Servimos, sim."
 Se há algo de que Mauro sempre se gabou, foi de suas Cachaças. E não é por menos. Admito adorá-las.
 Tomo mais algumas doses e assisto a banda terminar de tocar enquanto a tarde cai devagar. Deixo as horas rodarem enquanto bebo uma cerveja atrás da outra. Vi Mauro cruzar o salão algumas vezes, mas preferi esperar, não tenho pressa e prefiro conversar com ele em particular. Mergulho nas imagens de um passado agiota, que a bebida desenterra com classe, e quando noto, Mauro está ao meu lado, de pé, altivo, com um revolver intencionalmente à mostra. Já são dez horas e o bar está deserto.
 "Você tem um garoto e tanto aí, ein bonitão?" Digo, com um sorriso irônico, pouco antes de esvaziar a garrafa em mãos.
 "Quem vai pagar seu consumo?" Disse impondo-se. Imagino que ele tenha um prazer especial em atuar dessa forma com caloteiros. Entretanto, o revolver é um exagero para tal cobrança. Ele deve ter ouvido a meu respeito. A mídia não é mesmo magnífica?
 "O Gregório, é claro." Digo expressando certa obviedade ao franzir o rosto.
 "Achei que estivesse morto. O que faz aqui?" Questionou-me imperativo, se impondo como me lembro que costumava fazer quando via que as coisas iam sair do controle dentro de seu significante feudo.
 "Quem me dera, amigo..." Digo pegando mais um cigarro do maço que tenho fumado durante a tarde toda. Mantenho-o entre os lábios sem nem mesmo pegar o isqueiro, pois sei que, se acendê-lo, Mauro vai me enfiar a mão na cara. Ele detesta ser desrespeitado dentro de seu domínio. "... Quem me dera. Olha, eu não to procurando encrenca. Escreve o endereço do Gregório em um papel e me dá que eu saio daqui agora mesmo."
 "E como vou saber que eu não to jogando ele pros lobos?" Diz com um sotaque cantado, tradicional dos sulistas, e que, se não me falha a memória, ele não o tinha de forma tão acentuada quando o conheci. A despeito disso, sua arma parece se encaixar bem melhor neste perfil Mauro-justiceiro, do que no simples Mauro-não-vendo-fiado.
 "Porque diabos eu foderia o único sujeito na face da terra que acredita na minha inocência?" Digo enquanto guardo o maço com cuidado para não estragar com o último cigarro que há contido nele.
 "Talvez porque ele esteja errado."
 "E você acredita em tudo o que dizem por aí?"
 Um silêncio se fez. Mauro tira o revolver calibre 38 da calça e, apontado para baixo, o engatilha. Isso é como truco, é preciso saber blefar. Eu não sei quão bom nisso Mauro é, mas estou colocando todas as minhas fichas em uma única carta. Gregório é o sujeito mais sensato que já conheci em toda a minha vida. Ele sabe ponderar cada sentimento, estudar cada ponto de uma situação. Ele é, apesar de cabeça-dura, muito racional. Se Mauro souber disso tanto quanto eu, ele me dará o endereço e evitará problemas.
 "Muito bem." Diz colocando seu brinquedinho sobre a mesa. Ele escreve o endereço em uma pequena folha de caderno, a rasga, e me entrega, exigindo-me que não volte à aparecer em seu limitado império. Aceito a condição, e, apenas por diversão, vejo-o ranger os dentes quando acendo o cigarro, ainda sob as telhas de sua autoridade. Viro as costas e saio de lá, enfiando o papel no bolso da calça, e satisfeito por saber que o superestimei. Acreditei mesmo que levaria aquele soco, nem que fosse pelas costas, antes de sair de seu bar.
 Ando alguns quarteirões, analiso a nota que Mauro me fez e peço informação para um rapaz no ponto de ônibus. Tomo fôlego após a que me foi fornecida. Pelo visto terei que cruzar metade da cidade a pé.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Capítulo V - Hora de partir

 De volta ao quarto, confuso, me sento sobre a cama e sinto a culpa me atingir afiada. Pouco mais de sete anos se passaram e ainda digo a mim mesmo que preciso de um tempo. Vou até o banheiro, afogo meu rosto em água suja de remorsos antigos, mas ainda água que refresca, que ameniza o calor abafado já pela manhã.
 Levanto minha cabeça, me deparo com o espelho e reluto em olhar-me pois o que ele mostra não me agrada. A barba mal feita e o cabelo sem corte, a cicatriz nos lábios, no corpo, na alma. Eu não sou mais do que apenas isso, um corpo vazio entregue à inércia.
 Desde aquela noite, desde que eu me tornei esse viajante derrotado da realidade, sinto minha mente cansada, aflita pelos devaneios de uma falsa liberdade. Tal liberdade que almejei durante a juventude e possuí por muito tempo já não significa coisa alguma. Nunca me senti tão encarcerado dentro de mim mesmo e de um mundo que já não me diz respeito; o calor nunca esteve tão frio, e os dias nunca foram tão escuros quanto tem sido durante estes últimos anos.
 Dirijo-me até minhas poucas coisas - algumas roupas, uma bíblia que não abro há anos, mas ainda assim insisto em colocá-la sobre o criado-mudo; o rosário de pedras vinho, minha carteira sem documentos e com poucas coisas de valor, se não cartões de oficinas e bares, e algumas fotos que evito olhar; o maço de cigarros e um isqueiro. Guardo minha carteira no bolso de trás, o rosário por entre o pescoço, o maço e o isqueiro no bolso da frente e o restante é colocado com desleixo dentro da mala. Pego meu violão, que carrego para consolar-me durante as noites de insônia e fazer dinheiro nas noites de sorte; e, pronto para deixar este lugar, sinto todo o peso do mundo em minhas costas novamente. Deixo o dinheiro da estadia em cima da cama junto à chave do quarto e saio pela porta principal enquanto o balconista conversa com algumas pessoas. Imagino que não tenha notado minha partida.
 Estou sem dinheiro pro ônibus e a polícia deve estar na lanchonete exatamente agora. Comparo as alternativas, e mesmo antes de uma análise rápida, já noto estar indo para o posto de combustível mais próximo, de onde vejo muitos caminhões saindo. São oito horas, do outro lado da vitrine do posto de conveniências, no relógio da parede, logo atrás do caixa. É hora de partir.
 Uma brisa confortável, úmida e fresca cruza meu caminho assim que me aproximo de um caminhoneiro que parecia se espreguiçar. Pergunto se ele tem um cigarro pra me oferecer, pois o meu último foi consumido há alguns minutos. Infelizmente, o garoto não é fumante, mas é simpático e engatou uma conversa que dá indícios de ser longa, e que aceito participar (ainda que passivamente) ao descobrir que ele está indo para Curitiba fazer uma entrega. A carona vem fácil.
 "Porra! Por que cê não falou antes que ia pra Curitiba! Só espera eu dá uma mijadinha que eu te levo lá." Disse entusiasmado antes de começar a qualificar, com gírias novas que nem mesmo entendo, mas que pela forma usada, parece ser empregada apenas para adjetivar raridades.
 Aproveito então o tempo que tenho e vou até a lanchonete do posto. Dessa vez não vou comer nada, e muito menos quebrar o nariz de alguém. Me dirijo até o caixa. O médico disse que isso estava me matando, mas eu já não me importo. Morrer se tornou uma opção atraente há algum tempo, apenas sou covarde demais para fazer isso com as próprias mãos e acabar com tudo de uma vez por todas.
“Dois maços de cigarros, por favor.”
 Eu pago e logo em seguida ouço um grito:
 "Vamu nessa, mano! Curitiba tá esperando por nois!"
 Não só Curitiba. Está na hora de cobrar alguns favores.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Capítulo IV - Velhos amigos, certo?

 Abaixo meu chapéu, com a esperança de que ele não me veja. As chances são boas; cabelos longos, barba no rosto, posso estar irreconhecível, principalmente depois de sete anos. Ele parece distraído, pára próximo ao caixa, depois de cumprimentar com a cabeça um senhor que está pagando a conta, e, antes de fazer seu pedido, solta sua mão direita no ar, para que a gravidade faça seu trabalho, caindo com força sobre o superfície do balcão.
"Dá uma café aí pra me acordar que eu to me sentindo um maldito zumbi." e segue em direção ao banheiro, logo atrás de mim.
 Samuel sempre teve o hábito de virar a noite na estrada e descansar durante o dia, peculiaridade que, felizmente para época, compartilhávamos. O fato é que eu nunca tive certeza se foi um costume que ele ganhou ao me conhecer, ou que, na realidade, já sustentava há muito tempo. Entretanto uma coisa é certa: Esta semelhança nos poupou várias horas perdidas, presos no transito em feriados e fins de semana.
 Ganho alguma confiança ao vê-lo passar por mim, porém, algo soa estranho logo em seguida. Ainda de cabeça baixa, procuro pelo som da porta do banheiro, mas não consigo ouvi-la. Nem abrir-se nem fechar-se. Ouço a rodovia, o som da chapa da cozinha queimando qualquer coisa, a maquina de café enchendo o copo de Samuel, alguém assobiando uma canção irreconhecível provavelmente devido à inigualável destreza do músico desconhecido, um senhor abrindo um pacote de cigarros enquanto caminha para a saída, e até mesmo os estalos de amendoins sendo estraçalhados dentro da boca do rapaz encostado na geladeira de Coca-Cola a poucos metros de distância, mas nada do som da porta do banheiro.
 Então me dou conta do que vai acontecer quando ouço o som de botinas se aproximando.
 “Eagle!"
 Ele parece com raiva. Eu não o culpo.
 Ele grita com sua voz rouca de cigarros e whiskey. Santo Deus. Samuel me acusa o tempo todo enquanto ouço-o se aproximar, mas mesmo assim eu não me viro. Não sei ao certo se por vergonha do que fiz, ou se é simplesmente para simular indiferença. Acho mesmo é que não quero ver a dor com que ele transborda toda essa cólera, pois tudo o que ele diz, rosnando incansavelmente, me agride, me molesta, me machuca, e ainda assim, ele tem toda a razão e o direito de me odiar. Não quero que ele veja meu rosto, pois ele nunca mais o viu depois do que aconteceu. Eu sinto a culpa queimar-me por dentro a cada vez em que ele vociferava o nome de Estela. Eu mereço tal culpa. Sinto cada pesar de suas palavras e de seu rancor. Cada acusação como um soco bem no meio de meu rosto. E ele ainda é o mesmo Samuel que conheci há anos, apenas eu é que não sou o mesmo Richard.
 Ele esbraveja com o valor da razão mas me acusa de coisas que eu não fiz. Isso me incomoda, mas ninguém em minha posição tem o direito de reivindicar a verdade concreta. São mentiras, mas reflexos de uma verdade central, e essa... Bom, essa me condena por qualquer outra acusação
 As pessoas da lanchonete sussurram e arregalam os olhos ao ver quem realmente sou. Todos me julgando, se não com seus mal mascarados murmúrios, em seus pensamentos. Sinto como se eu pudesse ouvir cada um deles:
“Ele é um monstro!"," Como teve coragem?”, “Eu não acredito.” , “Quem ele pensa que é para ser tão indiferente?”
 Tudo volta a ter cheiro de sangue, gosto de ferro, textura de fogo, cor de cinzas e som de chuva. Sento-me como naquela noite, exatamente da mesma maneira, como se o tempo não tivesse passado e meu corpo não tivesse envelhecido. E isso tudo acontece em um daqueles breves momentos que se estendem incompreensivelmente; você provavelmente os conhece.
 Samuel me puxa pelo ombro esquerdo e a única coisa que ele não poderia ter feito era encostar em mim. Ele é grande, e se tem algo que aprendi durante a minha vida é que se alguém tem que dar o primeiro soco de uma briga, que seja você. Feito isso, meu punho tomou a direção devida quase instintivamente, me fazendo assinar a minha confissão de culpa, bem no nariz dele. Eu não queria ter feito isso, mas eu sei que se ele pudesse, ele me mataria. E isso era exatamente o que ele ia fazer se eu não o lançasse contra lona.
 Finalmente estou voltado pra ele, vendo-o deitado com as mãos sobre o nariz com a cara cheia de sangue. Eu o atingi com toda a minha força, mas ele é resistente e sabe brigar. Da indícios de que vai se levantar e então impeço-o com um chute nas costelas, mais uma vez com toda a minha força, e então ele volta pro chão.
 "Seu..." Vejo-o fazer os intervalos exigidos pela dor. "...Seu filho da puta..."
 "Desculpe por isso, Samuel" Digo enquanto abro minha carteira.
 "Você...acha... que só porque a policia parou de te procurar eu vou deixar... uff... barato, seu merda?"
 "Não, cara, tenho certeza que não. Exatamente nesse momento..." Digo ao ver o cozinheiro usando o celular enquanto me olha com um ar de horrorizado "... o rapaz ali está chamando a policia, e eles terão uma nova pista sobre o meu paradeiro. É só questão de tempo."
 Viro-me em direção à saída quando me lembro que tenho uma nota de dois reais em mãos.
 "Ah! Quase me esqueci." Disse colocando a nota sobre o balcão. "Eu pago seu café."
 Nesse instante eu noto, enquanto ele tenta se levantar, seus olhos completamente vermelho, lacrimejando. Ele chorava enquanto cuspia mal-dizeres. Como poderia não chorar?
 Abaixo meu olhar e tento não atolar-me em nenhum lamaçal de consciência. Eu preciso sair daqui e minhas pernas parecem compreender essa necessidade; fazem quase todo o trabalho sozinhas enquanto solto um último lamento patético e de pouco significado para Samuel:
 "Desculpe mesmo. Eu sinto muito, amigo. Sinto muito."

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Capítulo III - Velhos amigos

 Deixo o hotel, enquanto o sol nasce sem medo do que vem a seguir, parecendo não ter nada a perder, assim como eu. Cruzo os quarteirões em meio à umidade das ruas e o vapor que se ergue preguiçoso sob o ar da manhã - já abafada - por entre os olhares desconfiados que minha aparência desleixada atrai em cidades pequenas.
 Paro em frente a uma pequena lanchonete tendo suas portas levantadas por dois rapazes de branco. Fumo um dos poucos cigarros que ainda me restam do lado de fora enquanto aguardo tais trabalhadores se organizarem e assisto uma pessoa ou outra entrar para ter sua primeira refeição do dia. Não demoro a entrar também e mais uma vez atraio olhares. Abaixo meu chapéu em sinal de uma humildade qualquer que não me pertence e me sento na ponta do balcão o mais distante da entrada possível, simplesmente por um instinto de exílio adquirido por força das circunstâncias.
 Conto a grana que quase não dará para o quarto de hotel. Faço as contas mentalmente de forma negligente demais para estarem certas e peço:
 "Um café e qualquer coisa de mais barato pra comer."
 "Vai um pão na chapa?" Responde o mais jovem dos dois rapazes que abriram a lanchonete há alguns minutos.
 "Pode ser." Respondo enquanto conto algumas moedas sobre o balcão.
 Não demora muito para que este mesmo rapaz, de avental preto e boné branco com o nome da lanchonete costurado em azul sobre a aba, me sirva o pedido, e eu termine a minha primeira refeição, e talvez única, do dia.
 Estou quase pronto para sair quando ouço o característico motor de uma Harley Davidson se aproximar e coloco-me automaticamente a procurá-la. Lá está, do outro lado do vidro que se estende atrás da única mesa do lugar, uma linda Fat Boy, contudo, estranhamente familiar. Faço uma busca rápida pela minha aterradora memória com o intuito de identificá-la o mais rápido possível, quando percebo um estalo característico no som do motor ao ser desligada.
 "Puta merda."
 O motociclista apoia sua máquina no estribo e, puxando dedo após dedo, retira sua luva de couro e guarda  ambas no bolso direito da jaqueta.
 "Não, não pode ser ele. É gordo demais. Provavelmente vendeu sua moto, nada mais. Seria muita falta de sorte, uma verdadeira piada do destino..." E então tenho os pensamentos calados pela brutalidade com que a realidade decepou minhas expectativas. O motociclista retira seu capacete escuro e desmascara a face envelhecida de um sujeito que conheci muito bem e que não vejo há alguns anos, mas que ainda manca como logo ao nos conhecermos. É ele. De brincos reluzentes e cabelos longos, ele entra na lanchonete. Seu nome é Samuel, um velho amigo com quem tive os laços cortados pelas escolhas que fiz.
 Coloco meus olhos sobre ele e imediatamente minha mente passa a deixar de estar tão vazia e é brutalmente inundada com lembranças. Seja lá quem for que esteja nas rédeas desse tal acaso escroto e miserável, eu não exitaria em atolar-lhe uma bala no cérebro! Aqui estou eu, na pequena cidade de Dois Vizinhos, tão conhecida pelos Brasileiros quanto a porra da face do maldito Carlos Adão, e ainda assim encontro Samuel.
   Anos atrás, eu estava indo para Florianópolis quando nossos destinos se cruzaram pela primeira vez. Não havia ninguém na estrada e eu estava acima da velocidade quando me deparei com um acidente envolvendo um Vectra e a caminhonete de Samuel logo após a curva. Surpreendido, tentei frear para não colidir com a caminhonete completamente amassada e o Vectra atravessado na pista, mas devido à instabilidade de uma motocicleta antiga, deslizei e fui lançado junto à minha maquina sobre o pasto, por sorte, mal cortado, já próximo do acidente. Levantei-me sem grande pressa enquanto um sujeito, que depois descobri ser o dono do Vectra, dizia meias palavras de forma ofegante, rápido demais para terem nexo. Ignorei em um primeiro momento, imaginando que poderia ser fruto de qualquer delírio do corte que escorria-lhe sangue por toda sobrancelha esquerda, entretanto, após pedir pra que ele falasse um pouco mais devagar, compreendi.
 "O... O cara..." Ele fazia curtos intervalos para poder realimentar seus pulmões que jorravam todo o ar vertiginosamente "... tá preso... na caminhonete."
 Resolvi ir até lá checar o estado de Samuel sem saber ao certo por que ele me avisou algo assim. Quero dizer, isso é coisa pros bombeiros ou pra policia, certo?  Coloquei-me sobre o asfalto novamente imaginando quanto dano a minha moto poderia ter sofrido quando reparei que minha perna estava em carne viva e não existia mais a perna esquerda da minha calça. A partir daí achei que talvez fosse melhor me focar no meu problema, no caso o dano que minha perna sofreu, mas o motorista do Vectra parecia realmente assustado então decidi dar uma olhada nisso primeiro.
 Acendi um cigarro e assim que me aproximei um pouco mais corri os olhos pela faixa dupla continua até a caminhonete e não precisei mais do que uma olhada com um pouco de atenção para notar a chama sobre o capô da caminhonete. Bom, acho que não preciso mencionar mais nada, né? Adrenalina.
 Eu me enfiei no meio daquele monte de pontas de metal disforme, cortando assim, suavemente meus braços, e o puxei de lá de dentro o mais rápido que pude. Infelizmente sua amada caminhonete rasgou profundamente sua perna direita da cintura até o tornozelo assim que eu o puxei.
 "Filho da puta!" Ele uivou cuspindo e rosnando, querendo me socar enquanto eu o tirava dali sem o cuidado exigido e descartado pela necessidade. Bem que todos diziam, inclusive Estela, que certas vezes Samuel era como um animal ferido.
 "O Samuca é  assim, ataca qualquer um para se proteger quando esta indefeso." Ela dizia com sua voz suave.
  Definitivamente essa foi a ilustração mais clara e literal dessa metáfora que já pude presenciar.
 Carreguei-o no colo, mas como eu também estava ferido não consegui nos afastar o suficiente e tive sérias queimaduras de terceiro grau. Ainda possuo, depois de tantos anos, estas marcas nas costas.
 A partir de então nos tornamos próximos, ele me ajudou a reconstruir minha motocicleta e consequentemente se apaixonou por isso. Ajudei-o a montar a dele meses depois e rodamos juntos por um longo tempo. Tivemos um negócio juntos e tivemos laços fortes que iam muito além da mera amizade. Definitivamente fomos bons amigos e temos varias outras histórias juntos, porém, bons amigos já não tem sido bem vindos faz algum tempo.

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Capítulo II - Dilúvio pessoal

 Acordo no meio da noite com o barulho dos trovões e mais um pesadelo entre os que eu costumo ter. Sinto a insônia à espreita, o tipo de sensação que me força a levantar da cama para caçá-la e que lamentavelmente a alimenta.
 Você possivelmente já ouviu um violão em afinação aberta sendo sutilmente acariciado por um slide enferrujado. Pois esse é o som que senti necessidade de fazer no exato instante em que me coloquei frente à janela observando a tempestade se deitar sobre os telhados, telhas, ruas e carros estacionados. É inevitável para qualquer um que já possuiu o que eu possui; e não me refiro às escolhas irrevogáveis ou perdas que se estenderão por toda a minha existência. O sentimento de saudade de minha máquina se apodera de mim de forma consentida e faz vibrar por entre minha pela, gordura, músculos, ossos, e alma o chamado da liberdade. A vontade fugaz de alcançar meu violão e fazê-lo gemer como uma mulher foi rapidamente sobreposta pela necessidade silenciosa, contudo perene, de lançar-me incomplacente e feroz contra o mundo em minha antiga Harley 74. Passei meses adaptando-a, arrancando-lhe o peso excessivo de suas armaduras, retalhando-a pra ganhar um pouco mais de velocidade como faziam os da velha guarda. Jamais haverá outra Motocicleta como aquela, assim como tudo o mais que perdi daquela época.
 O sentimento de ser implacável sobre aquela máquina rara me traz a culpa de não poder ter feito tudo diferente. A sensação de estar livre se ausenta desde então, e sinto-me morto por vários malditos motivos. Me odeio sempre que me sento em uma poltrona apertada de ônibus e sou obrigado a assistir ao mundo enclausurado em tal cápsula de aspecto depresso, e aqui, neste quarto de hotel, o motor de minha chopper ainda parece se encontrar dentro de meu cérebro. Meus pensamentos se amarram depressa e me lembro do quanto aprendi ao cruzar e viver no estado de Santa Catarina.
 Estacionei a moto em frente a um posto de salva vidas, no meio fio em frente à praia. Estela pulou da garupa como uma criança ansiosa e reclamona, e se dirigiu-se desesperada até a barraca de água de coco próxima dali. Ela ainda não havia se acostumado com viagens longas e queixava de sede e dor nas pernas. Pulou sobre a areia já puxando as notas de cinco reais do bolso de trás com o desespero de uma andarilha no Saara. Achei-a fascinante.
 Fazia calor, então me desfiz de minha jaqueta e a deixei sobre a moto junto de minhas luvas e meu capacete. Gaivotas dançavam sobre o horizonte. A temperatura me trazia incômodo, mas em contrapartida o oceano arrastava um som maravilhoso. A típica música do mar, conhecida e acolhedora, herdada de nossos ancestrais mais antigos e divinos; é um som celestial , um som que me trazia ali, enquanto eu observava aquela mulher saciar sua sede e movimentar seu pé direito fazendo círculos na areia para tranquilizar seu gritante calcanhar, a certeza de não estar só em meio aos detestáveis efeitos antrópicos no mundo.
 Infelizmente, já não tenho a mesma sensação ao ouvir ondas entregando-se às pedras como amantes de outrora. Em minha última relação com o mar, colocando em um plano eufêmico sobre paixão e sexo, posso dizer que foi quase um estupro semi-necrófilo.
 Sadismos à parte, visto-me e saio do quarto, já são quase cinco e meia da manhã, o sol logo vai nascer.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Capítulo I - Chegada a qualquer lugar

 E é assim, quando o fardo da mentira é mais pesado do que as conseqüências da verdade, só nos resta fugir para onde nos sentimos seguros e aqui estou eu novamente, pegando mais um ônibus em direção a outra cidade, sem destino final, sem idéia do que verdadeiramente busco, e mais uma vez, é apenas de mim que estou fugindo.
 O ônibus para, e eu desço cansado da viagem em claro que fiz durante dois dias. Esfrego os olhos para enxergar a realidade disso tudo, e só o que eu vejo é um pequeno terminal rodoviário em uma pequena cidade.
 “Bom, é tudo do que eu preciso agora” Digo enquanto coloco meu bom e velho chapéu e limpo as barras da calça de poeira vermelha que o estado anterior deixou em minhas botas.
 Pego rápido minha mala e meu violão e me dirijo até um bar, observando o céu em movimento de chuva, porém sem se precipitar. O ônibus parte rápido deixando uma poeira de fumaça negra de más lembranças e dióxido de carbono, enquanto alimento a obsoleta esperança de poder me distrair com qualquer coisa fugaz e trivial.
 Entro no boteco - o primeiro que avisto - evitando cruzar olhares com qualquer um que seja - costume adquirido devido às circunstâncias - e lançando a mala contra o balcão de azulejos encardidos me apoio sobre o mesmo. Instintivamente miro o rádio de pilha que, apesar de inacreditável, parece torturar só a mim em meio à mulher lavando louças frente a pia, do outro lado do balcão; o gordo que come vorazmente uma coxinha sem medo de arrancar a própria mão - eu teria; e o sujeito sentado em uma cadeira de plástico amarela, tagarelando divagações temulentas.
 "O que vai ser, peão?" Pergunta a mulher que lavava louças, quase exigindo-me a resposta, enquanto seca as mãos no avental rosa com bordados vermelhos.
 "Me da alguma coisa pra tomar."
 Sem perguntar nada ela me coloca uma Schin, que me parece estar quente, sobre o balcão e a abre com jeito. O arrependimento de não ter sido mais especifico me toma com força, sem porém, ser este o grito de protesto necessário para mover meu desejo de romper com meu tradicional silêncio. Contudo, outra coisa consegue fazer-se.
 "O que é isso que tá tocando?"
 "Calcinha Preta."
 Não faço ideia de qual exatamente é minha reação, mas a mulher parece percebê-la claramente.
 "Se não gosta, pergunta por quê?" De maneira áspera, com um brusco mover do tronco que coloca seus seios flácidos - diretamente proporcional às rugas em sua face - a balançar descoordenadamente.
 "Pra eu ter certeza de que nunca mais vou ouvir de novo, nem por acidente, essa merda."
 Ela grunhi alguma coisa e me xinga de alguma outra antes de virar as costas e se recolher, mas eu não me importo. Bebo o ultimo gole da cerveja quando a água começa a cair, e começo a me lembrar do que deveria estar tentando esquecer. Vagando pela minha cabeça, acidentalmente é claro, encontro-me caindo de moto entre o desespero e a esperança, e as lembranças me enlaçam forte o peito e contraditoriamente aceleram meus batimentos cardíacos, e então percebo: É hora de dar o fora.
 Paro em um hotel de quinta, a dois quilômetros do boteco - que é a distância máxima que pude suportar ser surrado pela chuva; esta parece querer pregar a humanidade na crosta terrestre - coloco-me porta adentro e dirijo-me à recepcionista.
 “Um quarto, por favor,”
 Digo com a voz semi rouca de gripe, sempre inconveniente, e a recepcionista responde e escreve simultaneamente com eficiência e velocidade.
 “Nome, por favor?”
 Sem orgulho nenhum:
 “Richard Eagle”.