segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Capítulo V - Hora de partir

 De volta ao quarto, confuso, me sento sobre a cama e sinto a culpa me atingir afiada. Pouco mais de sete anos se passaram e ainda digo a mim mesmo que preciso de um tempo. Vou até o banheiro, afogo meu rosto em água suja de remorsos antigos, mas ainda água que refresca, que ameniza o calor abafado já pela manhã.
 Levanto minha cabeça, me deparo com o espelho e reluto em olhar-me pois o que ele mostra não me agrada. A barba mal feita e o cabelo sem corte, a cicatriz nos lábios, no corpo, na alma. Eu não sou mais do que apenas isso, um corpo vazio entregue à inércia.
 Desde aquela noite, desde que eu me tornei esse viajante derrotado da realidade, sinto minha mente cansada, aflita pelos devaneios de uma falsa liberdade. Tal liberdade que almejei durante a juventude e possuí por muito tempo já não significa coisa alguma. Nunca me senti tão encarcerado dentro de mim mesmo e de um mundo que já não me diz respeito; o calor nunca esteve tão frio, e os dias nunca foram tão escuros quanto tem sido durante estes últimos anos.
 Dirijo-me até minhas poucas coisas - algumas roupas, uma bíblia que não abro há anos, mas ainda assim insisto em colocá-la sobre o criado-mudo; o rosário de pedras vinho, minha carteira sem documentos e com poucas coisas de valor, se não cartões de oficinas e bares, e algumas fotos que evito olhar; o maço de cigarros e um isqueiro. Guardo minha carteira no bolso de trás, o rosário por entre o pescoço, o maço e o isqueiro no bolso da frente e o restante é colocado com desleixo dentro da mala. Pego meu violão, que carrego para consolar-me durante as noites de insônia e fazer dinheiro nas noites de sorte; e, pronto para deixar este lugar, sinto todo o peso do mundo em minhas costas novamente. Deixo o dinheiro da estadia em cima da cama junto à chave do quarto e saio pela porta principal enquanto o balconista conversa com algumas pessoas. Imagino que não tenha notado minha partida.
 Estou sem dinheiro pro ônibus e a polícia deve estar na lanchonete exatamente agora. Comparo as alternativas, e mesmo antes de uma análise rápida, já noto estar indo para o posto de combustível mais próximo, de onde vejo muitos caminhões saindo. São oito horas, do outro lado da vitrine do posto de conveniências, no relógio da parede, logo atrás do caixa. É hora de partir.
 Uma brisa confortável, úmida e fresca cruza meu caminho assim que me aproximo de um caminhoneiro que parecia se espreguiçar. Pergunto se ele tem um cigarro pra me oferecer, pois o meu último foi consumido há alguns minutos. Infelizmente, o garoto não é fumante, mas é simpático e engatou uma conversa que dá indícios de ser longa, e que aceito participar (ainda que passivamente) ao descobrir que ele está indo para Curitiba fazer uma entrega. A carona vem fácil.
 "Porra! Por que cê não falou antes que ia pra Curitiba! Só espera eu dá uma mijadinha que eu te levo lá." Disse entusiasmado antes de começar a qualificar, com gírias novas que nem mesmo entendo, mas que pela forma usada, parece ser empregada apenas para adjetivar raridades.
 Aproveito então o tempo que tenho e vou até a lanchonete do posto. Dessa vez não vou comer nada, e muito menos quebrar o nariz de alguém. Me dirijo até o caixa. O médico disse que isso estava me matando, mas eu já não me importo. Morrer se tornou uma opção atraente há algum tempo, apenas sou covarde demais para fazer isso com as próprias mãos e acabar com tudo de uma vez por todas.
“Dois maços de cigarros, por favor.”
 Eu pago e logo em seguida ouço um grito:
 "Vamu nessa, mano! Curitiba tá esperando por nois!"
 Não só Curitiba. Está na hora de cobrar alguns favores.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Capítulo IV - Velhos amigos, certo?

 Abaixo meu chapéu, com a esperança de que ele não me veja. As chances são boas; cabelos longos, barba no rosto, posso estar irreconhecível, principalmente depois de sete anos. Ele parece distraído, pára próximo ao caixa, depois de cumprimentar com a cabeça um senhor que está pagando a conta, e, antes de fazer seu pedido, solta sua mão direita no ar, para que a gravidade faça seu trabalho, caindo com força sobre o superfície do balcão.
"Dá uma café aí pra me acordar que eu to me sentindo um maldito zumbi." e segue em direção ao banheiro, logo atrás de mim.
 Samuel sempre teve o hábito de virar a noite na estrada e descansar durante o dia, peculiaridade que, felizmente para época, compartilhávamos. O fato é que eu nunca tive certeza se foi um costume que ele ganhou ao me conhecer, ou que, na realidade, já sustentava há muito tempo. Entretanto uma coisa é certa: Esta semelhança nos poupou várias horas perdidas, presos no transito em feriados e fins de semana.
 Ganho alguma confiança ao vê-lo passar por mim, porém, algo soa estranho logo em seguida. Ainda de cabeça baixa, procuro pelo som da porta do banheiro, mas não consigo ouvi-la. Nem abrir-se nem fechar-se. Ouço a rodovia, o som da chapa da cozinha queimando qualquer coisa, a maquina de café enchendo o copo de Samuel, alguém assobiando uma canção irreconhecível provavelmente devido à inigualável destreza do músico desconhecido, um senhor abrindo um pacote de cigarros enquanto caminha para a saída, e até mesmo os estalos de amendoins sendo estraçalhados dentro da boca do rapaz encostado na geladeira de Coca-Cola a poucos metros de distância, mas nada do som da porta do banheiro.
 Então me dou conta do que vai acontecer quando ouço o som de botinas se aproximando.
 “Eagle!"
 Ele parece com raiva. Eu não o culpo.
 Ele grita com sua voz rouca de cigarros e whiskey. Santo Deus. Samuel me acusa o tempo todo enquanto ouço-o se aproximar, mas mesmo assim eu não me viro. Não sei ao certo se por vergonha do que fiz, ou se é simplesmente para simular indiferença. Acho mesmo é que não quero ver a dor com que ele transborda toda essa cólera, pois tudo o que ele diz, rosnando incansavelmente, me agride, me molesta, me machuca, e ainda assim, ele tem toda a razão e o direito de me odiar. Não quero que ele veja meu rosto, pois ele nunca mais o viu depois do que aconteceu. Eu sinto a culpa queimar-me por dentro a cada vez em que ele vociferava o nome de Estela. Eu mereço tal culpa. Sinto cada pesar de suas palavras e de seu rancor. Cada acusação como um soco bem no meio de meu rosto. E ele ainda é o mesmo Samuel que conheci há anos, apenas eu é que não sou o mesmo Richard.
 Ele esbraveja com o valor da razão mas me acusa de coisas que eu não fiz. Isso me incomoda, mas ninguém em minha posição tem o direito de reivindicar a verdade concreta. São mentiras, mas reflexos de uma verdade central, e essa... Bom, essa me condena por qualquer outra acusação
 As pessoas da lanchonete sussurram e arregalam os olhos ao ver quem realmente sou. Todos me julgando, se não com seus mal mascarados murmúrios, em seus pensamentos. Sinto como se eu pudesse ouvir cada um deles:
“Ele é um monstro!"," Como teve coragem?”, “Eu não acredito.” , “Quem ele pensa que é para ser tão indiferente?”
 Tudo volta a ter cheiro de sangue, gosto de ferro, textura de fogo, cor de cinzas e som de chuva. Sento-me como naquela noite, exatamente da mesma maneira, como se o tempo não tivesse passado e meu corpo não tivesse envelhecido. E isso tudo acontece em um daqueles breves momentos que se estendem incompreensivelmente; você provavelmente os conhece.
 Samuel me puxa pelo ombro esquerdo e a única coisa que ele não poderia ter feito era encostar em mim. Ele é grande, e se tem algo que aprendi durante a minha vida é que se alguém tem que dar o primeiro soco de uma briga, que seja você. Feito isso, meu punho tomou a direção devida quase instintivamente, me fazendo assinar a minha confissão de culpa, bem no nariz dele. Eu não queria ter feito isso, mas eu sei que se ele pudesse, ele me mataria. E isso era exatamente o que ele ia fazer se eu não o lançasse contra lona.
 Finalmente estou voltado pra ele, vendo-o deitado com as mãos sobre o nariz com a cara cheia de sangue. Eu o atingi com toda a minha força, mas ele é resistente e sabe brigar. Da indícios de que vai se levantar e então impeço-o com um chute nas costelas, mais uma vez com toda a minha força, e então ele volta pro chão.
 "Seu..." Vejo-o fazer os intervalos exigidos pela dor. "...Seu filho da puta..."
 "Desculpe por isso, Samuel" Digo enquanto abro minha carteira.
 "Você...acha... que só porque a policia parou de te procurar eu vou deixar... uff... barato, seu merda?"
 "Não, cara, tenho certeza que não. Exatamente nesse momento..." Digo ao ver o cozinheiro usando o celular enquanto me olha com um ar de horrorizado "... o rapaz ali está chamando a policia, e eles terão uma nova pista sobre o meu paradeiro. É só questão de tempo."
 Viro-me em direção à saída quando me lembro que tenho uma nota de dois reais em mãos.
 "Ah! Quase me esqueci." Disse colocando a nota sobre o balcão. "Eu pago seu café."
 Nesse instante eu noto, enquanto ele tenta se levantar, seus olhos completamente vermelho, lacrimejando. Ele chorava enquanto cuspia mal-dizeres. Como poderia não chorar?
 Abaixo meu olhar e tento não atolar-me em nenhum lamaçal de consciência. Eu preciso sair daqui e minhas pernas parecem compreender essa necessidade; fazem quase todo o trabalho sozinhas enquanto solto um último lamento patético e de pouco significado para Samuel:
 "Desculpe mesmo. Eu sinto muito, amigo. Sinto muito."

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Capítulo III - Velhos amigos

 Deixo o hotel, enquanto o sol nasce sem medo do que vem a seguir, parecendo não ter nada a perder, assim como eu. Cruzo os quarteirões em meio à umidade das ruas e o vapor que se ergue preguiçoso sob o ar da manhã - já abafada - por entre os olhares desconfiados que minha aparência desleixada atrai em cidades pequenas.
 Paro em frente a uma pequena lanchonete tendo suas portas levantadas por dois rapazes de branco. Fumo um dos poucos cigarros que ainda me restam do lado de fora enquanto aguardo tais trabalhadores se organizarem e assisto uma pessoa ou outra entrar para ter sua primeira refeição do dia. Não demoro a entrar também e mais uma vez atraio olhares. Abaixo meu chapéu em sinal de uma humildade qualquer que não me pertence e me sento na ponta do balcão o mais distante da entrada possível, simplesmente por um instinto de exílio adquirido por força das circunstâncias.
 Conto a grana que quase não dará para o quarto de hotel. Faço as contas mentalmente de forma negligente demais para estarem certas e peço:
 "Um café e qualquer coisa de mais barato pra comer."
 "Vai um pão na chapa?" Responde o mais jovem dos dois rapazes que abriram a lanchonete há alguns minutos.
 "Pode ser." Respondo enquanto conto algumas moedas sobre o balcão.
 Não demora muito para que este mesmo rapaz, de avental preto e boné branco com o nome da lanchonete costurado em azul sobre a aba, me sirva o pedido, e eu termine a minha primeira refeição, e talvez única, do dia.
 Estou quase pronto para sair quando ouço o característico motor de uma Harley Davidson se aproximar e coloco-me automaticamente a procurá-la. Lá está, do outro lado do vidro que se estende atrás da única mesa do lugar, uma linda Fat Boy, contudo, estranhamente familiar. Faço uma busca rápida pela minha aterradora memória com o intuito de identificá-la o mais rápido possível, quando percebo um estalo característico no som do motor ao ser desligada.
 "Puta merda."
 O motociclista apoia sua máquina no estribo e, puxando dedo após dedo, retira sua luva de couro e guarda  ambas no bolso direito da jaqueta.
 "Não, não pode ser ele. É gordo demais. Provavelmente vendeu sua moto, nada mais. Seria muita falta de sorte, uma verdadeira piada do destino..." E então tenho os pensamentos calados pela brutalidade com que a realidade decepou minhas expectativas. O motociclista retira seu capacete escuro e desmascara a face envelhecida de um sujeito que conheci muito bem e que não vejo há alguns anos, mas que ainda manca como logo ao nos conhecermos. É ele. De brincos reluzentes e cabelos longos, ele entra na lanchonete. Seu nome é Samuel, um velho amigo com quem tive os laços cortados pelas escolhas que fiz.
 Coloco meus olhos sobre ele e imediatamente minha mente passa a deixar de estar tão vazia e é brutalmente inundada com lembranças. Seja lá quem for que esteja nas rédeas desse tal acaso escroto e miserável, eu não exitaria em atolar-lhe uma bala no cérebro! Aqui estou eu, na pequena cidade de Dois Vizinhos, tão conhecida pelos Brasileiros quanto a porra da face do maldito Carlos Adão, e ainda assim encontro Samuel.
   Anos atrás, eu estava indo para Florianópolis quando nossos destinos se cruzaram pela primeira vez. Não havia ninguém na estrada e eu estava acima da velocidade quando me deparei com um acidente envolvendo um Vectra e a caminhonete de Samuel logo após a curva. Surpreendido, tentei frear para não colidir com a caminhonete completamente amassada e o Vectra atravessado na pista, mas devido à instabilidade de uma motocicleta antiga, deslizei e fui lançado junto à minha maquina sobre o pasto, por sorte, mal cortado, já próximo do acidente. Levantei-me sem grande pressa enquanto um sujeito, que depois descobri ser o dono do Vectra, dizia meias palavras de forma ofegante, rápido demais para terem nexo. Ignorei em um primeiro momento, imaginando que poderia ser fruto de qualquer delírio do corte que escorria-lhe sangue por toda sobrancelha esquerda, entretanto, após pedir pra que ele falasse um pouco mais devagar, compreendi.
 "O... O cara..." Ele fazia curtos intervalos para poder realimentar seus pulmões que jorravam todo o ar vertiginosamente "... tá preso... na caminhonete."
 Resolvi ir até lá checar o estado de Samuel sem saber ao certo por que ele me avisou algo assim. Quero dizer, isso é coisa pros bombeiros ou pra policia, certo?  Coloquei-me sobre o asfalto novamente imaginando quanto dano a minha moto poderia ter sofrido quando reparei que minha perna estava em carne viva e não existia mais a perna esquerda da minha calça. A partir daí achei que talvez fosse melhor me focar no meu problema, no caso o dano que minha perna sofreu, mas o motorista do Vectra parecia realmente assustado então decidi dar uma olhada nisso primeiro.
 Acendi um cigarro e assim que me aproximei um pouco mais corri os olhos pela faixa dupla continua até a caminhonete e não precisei mais do que uma olhada com um pouco de atenção para notar a chama sobre o capô da caminhonete. Bom, acho que não preciso mencionar mais nada, né? Adrenalina.
 Eu me enfiei no meio daquele monte de pontas de metal disforme, cortando assim, suavemente meus braços, e o puxei de lá de dentro o mais rápido que pude. Infelizmente sua amada caminhonete rasgou profundamente sua perna direita da cintura até o tornozelo assim que eu o puxei.
 "Filho da puta!" Ele uivou cuspindo e rosnando, querendo me socar enquanto eu o tirava dali sem o cuidado exigido e descartado pela necessidade. Bem que todos diziam, inclusive Estela, que certas vezes Samuel era como um animal ferido.
 "O Samuca é  assim, ataca qualquer um para se proteger quando esta indefeso." Ela dizia com sua voz suave.
  Definitivamente essa foi a ilustração mais clara e literal dessa metáfora que já pude presenciar.
 Carreguei-o no colo, mas como eu também estava ferido não consegui nos afastar o suficiente e tive sérias queimaduras de terceiro grau. Ainda possuo, depois de tantos anos, estas marcas nas costas.
 A partir de então nos tornamos próximos, ele me ajudou a reconstruir minha motocicleta e consequentemente se apaixonou por isso. Ajudei-o a montar a dele meses depois e rodamos juntos por um longo tempo. Tivemos um negócio juntos e tivemos laços fortes que iam muito além da mera amizade. Definitivamente fomos bons amigos e temos varias outras histórias juntos, porém, bons amigos já não tem sido bem vindos faz algum tempo.

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Capítulo II - Dilúvio pessoal

 Acordo no meio da noite com o barulho dos trovões e mais um pesadelo entre os que eu costumo ter. Sinto a insônia à espreita, o tipo de sensação que me força a levantar da cama para caçá-la e que lamentavelmente a alimenta.
 Você possivelmente já ouviu um violão em afinação aberta sendo sutilmente acariciado por um slide enferrujado. Pois esse é o som que senti necessidade de fazer no exato instante em que me coloquei frente à janela observando a tempestade se deitar sobre os telhados, telhas, ruas e carros estacionados. É inevitável para qualquer um que já possuiu o que eu possui; e não me refiro às escolhas irrevogáveis ou perdas que se estenderão por toda a minha existência. O sentimento de saudade de minha máquina se apodera de mim de forma consentida e faz vibrar por entre minha pela, gordura, músculos, ossos, e alma o chamado da liberdade. A vontade fugaz de alcançar meu violão e fazê-lo gemer como uma mulher foi rapidamente sobreposta pela necessidade silenciosa, contudo perene, de lançar-me incomplacente e feroz contra o mundo em minha antiga Harley 74. Passei meses adaptando-a, arrancando-lhe o peso excessivo de suas armaduras, retalhando-a pra ganhar um pouco mais de velocidade como faziam os da velha guarda. Jamais haverá outra Motocicleta como aquela, assim como tudo o mais que perdi daquela época.
 O sentimento de ser implacável sobre aquela máquina rara me traz a culpa de não poder ter feito tudo diferente. A sensação de estar livre se ausenta desde então, e sinto-me morto por vários malditos motivos. Me odeio sempre que me sento em uma poltrona apertada de ônibus e sou obrigado a assistir ao mundo enclausurado em tal cápsula de aspecto depresso, e aqui, neste quarto de hotel, o motor de minha chopper ainda parece se encontrar dentro de meu cérebro. Meus pensamentos se amarram depressa e me lembro do quanto aprendi ao cruzar e viver no estado de Santa Catarina.
 Estacionei a moto em frente a um posto de salva vidas, no meio fio em frente à praia. Estela pulou da garupa como uma criança ansiosa e reclamona, e se dirigiu-se desesperada até a barraca de água de coco próxima dali. Ela ainda não havia se acostumado com viagens longas e queixava de sede e dor nas pernas. Pulou sobre a areia já puxando as notas de cinco reais do bolso de trás com o desespero de uma andarilha no Saara. Achei-a fascinante.
 Fazia calor, então me desfiz de minha jaqueta e a deixei sobre a moto junto de minhas luvas e meu capacete. Gaivotas dançavam sobre o horizonte. A temperatura me trazia incômodo, mas em contrapartida o oceano arrastava um som maravilhoso. A típica música do mar, conhecida e acolhedora, herdada de nossos ancestrais mais antigos e divinos; é um som celestial , um som que me trazia ali, enquanto eu observava aquela mulher saciar sua sede e movimentar seu pé direito fazendo círculos na areia para tranquilizar seu gritante calcanhar, a certeza de não estar só em meio aos detestáveis efeitos antrópicos no mundo.
 Infelizmente, já não tenho a mesma sensação ao ouvir ondas entregando-se às pedras como amantes de outrora. Em minha última relação com o mar, colocando em um plano eufêmico sobre paixão e sexo, posso dizer que foi quase um estupro semi-necrófilo.
 Sadismos à parte, visto-me e saio do quarto, já são quase cinco e meia da manhã, o sol logo vai nascer.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Capítulo I - Chegada a qualquer lugar

 E é assim, quando o fardo da mentira é mais pesado do que as conseqüências da verdade, só nos resta fugir para onde nos sentimos seguros e aqui estou eu novamente, pegando mais um ônibus em direção a outra cidade, sem destino final, sem idéia do que verdadeiramente busco, e mais uma vez, é apenas de mim que estou fugindo.
 O ônibus para, e eu desço cansado da viagem em claro que fiz durante dois dias. Esfrego os olhos para enxergar a realidade disso tudo, e só o que eu vejo é um pequeno terminal rodoviário em uma pequena cidade.
 “Bom, é tudo do que eu preciso agora” Digo enquanto coloco meu bom e velho chapéu e limpo as barras da calça de poeira vermelha que o estado anterior deixou em minhas botas.
 Pego rápido minha mala e meu violão e me dirijo até um bar, observando o céu em movimento de chuva, porém sem se precipitar. O ônibus parte rápido deixando uma poeira de fumaça negra de más lembranças e dióxido de carbono, enquanto alimento a obsoleta esperança de poder me distrair com qualquer coisa fugaz e trivial.
 Entro no boteco - o primeiro que avisto - evitando cruzar olhares com qualquer um que seja - costume adquirido devido às circunstâncias - e lançando a mala contra o balcão de azulejos encardidos me apoio sobre o mesmo. Instintivamente miro o rádio de pilha que, apesar de inacreditável, parece torturar só a mim em meio à mulher lavando louças frente a pia, do outro lado do balcão; o gordo que come vorazmente uma coxinha sem medo de arrancar a própria mão - eu teria; e o sujeito sentado em uma cadeira de plástico amarela, tagarelando divagações temulentas.
 "O que vai ser, peão?" Pergunta a mulher que lavava louças, quase exigindo-me a resposta, enquanto seca as mãos no avental rosa com bordados vermelhos.
 "Me da alguma coisa pra tomar."
 Sem perguntar nada ela me coloca uma Schin, que me parece estar quente, sobre o balcão e a abre com jeito. O arrependimento de não ter sido mais especifico me toma com força, sem porém, ser este o grito de protesto necessário para mover meu desejo de romper com meu tradicional silêncio. Contudo, outra coisa consegue fazer-se.
 "O que é isso que tá tocando?"
 "Calcinha Preta."
 Não faço ideia de qual exatamente é minha reação, mas a mulher parece percebê-la claramente.
 "Se não gosta, pergunta por quê?" De maneira áspera, com um brusco mover do tronco que coloca seus seios flácidos - diretamente proporcional às rugas em sua face - a balançar descoordenadamente.
 "Pra eu ter certeza de que nunca mais vou ouvir de novo, nem por acidente, essa merda."
 Ela grunhi alguma coisa e me xinga de alguma outra antes de virar as costas e se recolher, mas eu não me importo. Bebo o ultimo gole da cerveja quando a água começa a cair, e começo a me lembrar do que deveria estar tentando esquecer. Vagando pela minha cabeça, acidentalmente é claro, encontro-me caindo de moto entre o desespero e a esperança, e as lembranças me enlaçam forte o peito e contraditoriamente aceleram meus batimentos cardíacos, e então percebo: É hora de dar o fora.
 Paro em um hotel de quinta, a dois quilômetros do boteco - que é a distância máxima que pude suportar ser surrado pela chuva; esta parece querer pregar a humanidade na crosta terrestre - coloco-me porta adentro e dirijo-me à recepcionista.
 “Um quarto, por favor,”
 Digo com a voz semi rouca de gripe, sempre inconveniente, e a recepcionista responde e escreve simultaneamente com eficiência e velocidade.
 “Nome, por favor?”
 Sem orgulho nenhum:
 “Richard Eagle”.