segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Capítulo I - Chegada a qualquer lugar

 E é assim, quando o fardo da mentira é mais pesado do que as conseqüências da verdade, só nos resta fugir para onde nos sentimos seguros e aqui estou eu novamente, pegando mais um ônibus em direção a outra cidade, sem destino final, sem idéia do que verdadeiramente busco, e mais uma vez, é apenas de mim que estou fugindo.
 O ônibus para, e eu desço cansado da viagem em claro que fiz durante dois dias. Esfrego os olhos para enxergar a realidade disso tudo, e só o que eu vejo é um pequeno terminal rodoviário em uma pequena cidade.
 “Bom, é tudo do que eu preciso agora” Digo enquanto coloco meu bom e velho chapéu e limpo as barras da calça de poeira vermelha que o estado anterior deixou em minhas botas.
 Pego rápido minha mala e meu violão e me dirijo até um bar, observando o céu em movimento de chuva, porém sem se precipitar. O ônibus parte rápido deixando uma poeira de fumaça negra de más lembranças e dióxido de carbono, enquanto alimento a obsoleta esperança de poder me distrair com qualquer coisa fugaz e trivial.
 Entro no boteco - o primeiro que avisto - evitando cruzar olhares com qualquer um que seja - costume adquirido devido às circunstâncias - e lançando a mala contra o balcão de azulejos encardidos me apoio sobre o mesmo. Instintivamente miro o rádio de pilha que, apesar de inacreditável, parece torturar só a mim em meio à mulher lavando louças frente a pia, do outro lado do balcão; o gordo que come vorazmente uma coxinha sem medo de arrancar a própria mão - eu teria; e o sujeito sentado em uma cadeira de plástico amarela, tagarelando divagações temulentas.
 "O que vai ser, peão?" Pergunta a mulher que lavava louças, quase exigindo-me a resposta, enquanto seca as mãos no avental rosa com bordados vermelhos.
 "Me da alguma coisa pra tomar."
 Sem perguntar nada ela me coloca uma Schin, que me parece estar quente, sobre o balcão e a abre com jeito. O arrependimento de não ter sido mais especifico me toma com força, sem porém, ser este o grito de protesto necessário para mover meu desejo de romper com meu tradicional silêncio. Contudo, outra coisa consegue fazer-se.
 "O que é isso que tá tocando?"
 "Calcinha Preta."
 Não faço ideia de qual exatamente é minha reação, mas a mulher parece percebê-la claramente.
 "Se não gosta, pergunta por quê?" De maneira áspera, com um brusco mover do tronco que coloca seus seios flácidos - diretamente proporcional às rugas em sua face - a balançar descoordenadamente.
 "Pra eu ter certeza de que nunca mais vou ouvir de novo, nem por acidente, essa merda."
 Ela grunhi alguma coisa e me xinga de alguma outra antes de virar as costas e se recolher, mas eu não me importo. Bebo o ultimo gole da cerveja quando a água começa a cair, e começo a me lembrar do que deveria estar tentando esquecer. Vagando pela minha cabeça, acidentalmente é claro, encontro-me caindo de moto entre o desespero e a esperança, e as lembranças me enlaçam forte o peito e contraditoriamente aceleram meus batimentos cardíacos, e então percebo: É hora de dar o fora.
 Paro em um hotel de quinta, a dois quilômetros do boteco - que é a distância máxima que pude suportar ser surrado pela chuva; esta parece querer pregar a humanidade na crosta terrestre - coloco-me porta adentro e dirijo-me à recepcionista.
 “Um quarto, por favor,”
 Digo com a voz semi rouca de gripe, sempre inconveniente, e a recepcionista responde e escreve simultaneamente com eficiência e velocidade.
 “Nome, por favor?”
 Sem orgulho nenhum:
 “Richard Eagle”.

6 comentários:

...Dave... disse...

AAAh...Muito bom..!

Carlos Assis disse...

Raul, muito legal! Vou acompanhar essa história e continuar descobrindo o escritor que você está se tornando. Parabéns!!!

Raul Ferro disse...

opa vlw fessor ;)

Thata disse...

Adorei!
bom no caso dele ele tem a oportunidade de fugir...
em uma época da minha vida(to mto véia)eu pensava que fugir resolveria...
nun resolve nada...so tras mais tristeza...
mas eu me identifiquei com o personagem
=D

Um bjo no coração*

Leandro Félix disse...

Não sei nem se ainda posta aqui, li grande parte de "Diário de Richard Eagle" muitos meses atrás. Mas agora não achei mais nada no blog, se puder responder, agradeço.

Raul Ferro disse...

Leandro, estou reescrevendo a estória. Espero que goste da versão definitiva. Voltei a postar a pouco tempo e estou trabalhando nos textos novamente. Obrigado por acompanhar. Abraço.