terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Capítulo II - Dilúvio pessoal

 Acordo no meio da noite com o barulho dos trovões e mais um pesadelo entre os que eu costumo ter. Sinto a insônia à espreita, o tipo de sensação que me força a levantar da cama para caçá-la e que lamentavelmente a alimenta.
 Você possivelmente já ouviu um violão em afinação aberta sendo sutilmente acariciado por um slide enferrujado. Pois esse é o som que senti necessidade de fazer no exato instante em que me coloquei frente à janela observando a tempestade se deitar sobre os telhados, telhas, ruas e carros estacionados. É inevitável para qualquer um que já possuiu o que eu possui; e não me refiro às escolhas irrevogáveis ou perdas que se estenderão por toda a minha existência. O sentimento de saudade de minha máquina se apodera de mim de forma consentida e faz vibrar por entre minha pela, gordura, músculos, ossos, e alma o chamado da liberdade. A vontade fugaz de alcançar meu violão e fazê-lo gemer como uma mulher foi rapidamente sobreposta pela necessidade silenciosa, contudo perene, de lançar-me incomplacente e feroz contra o mundo em minha antiga Harley 74. Passei meses adaptando-a, arrancando-lhe o peso excessivo de suas armaduras, retalhando-a pra ganhar um pouco mais de velocidade como faziam os da velha guarda. Jamais haverá outra Motocicleta como aquela, assim como tudo o mais que perdi daquela época.
 O sentimento de ser implacável sobre aquela máquina rara me traz a culpa de não poder ter feito tudo diferente. A sensação de estar livre se ausenta desde então, e sinto-me morto por vários malditos motivos. Me odeio sempre que me sento em uma poltrona apertada de ônibus e sou obrigado a assistir ao mundo enclausurado em tal cápsula de aspecto depresso, e aqui, neste quarto de hotel, o motor de minha chopper ainda parece se encontrar dentro de meu cérebro. Meus pensamentos se amarram depressa e me lembro do quanto aprendi ao cruzar e viver no estado de Santa Catarina.
 Estacionei a moto em frente a um posto de salva vidas, no meio fio em frente à praia. Estela pulou da garupa como uma criança ansiosa e reclamona, e se dirigiu-se desesperada até a barraca de água de coco próxima dali. Ela ainda não havia se acostumado com viagens longas e queixava de sede e dor nas pernas. Pulou sobre a areia já puxando as notas de cinco reais do bolso de trás com o desespero de uma andarilha no Saara. Achei-a fascinante.
 Fazia calor, então me desfiz de minha jaqueta e a deixei sobre a moto junto de minhas luvas e meu capacete. Gaivotas dançavam sobre o horizonte. A temperatura me trazia incômodo, mas em contrapartida o oceano arrastava um som maravilhoso. A típica música do mar, conhecida e acolhedora, herdada de nossos ancestrais mais antigos e divinos; é um som celestial , um som que me trazia ali, enquanto eu observava aquela mulher saciar sua sede e movimentar seu pé direito fazendo círculos na areia para tranquilizar seu gritante calcanhar, a certeza de não estar só em meio aos detestáveis efeitos antrópicos no mundo.
 Infelizmente, já não tenho a mesma sensação ao ouvir ondas entregando-se às pedras como amantes de outrora. Em minha última relação com o mar, colocando em um plano eufêmico sobre paixão e sexo, posso dizer que foi quase um estupro semi-necrófilo.
 Sadismos à parte, visto-me e saio do quarto, já são quase cinco e meia da manhã, o sol logo vai nascer.

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