quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Capítulo III - Velhos amigos

 Deixo o hotel, enquanto o sol nasce sem medo do que vem a seguir, parecendo não ter nada a perder, assim como eu. Cruzo os quarteirões em meio à umidade das ruas e o vapor que se ergue preguiçoso sob o ar da manhã - já abafada - por entre os olhares desconfiados que minha aparência desleixada atrai em cidades pequenas.
 Paro em frente a uma pequena lanchonete tendo suas portas levantadas por dois rapazes de branco. Fumo um dos poucos cigarros que ainda me restam do lado de fora enquanto aguardo tais trabalhadores se organizarem e assisto uma pessoa ou outra entrar para ter sua primeira refeição do dia. Não demoro a entrar também e mais uma vez atraio olhares. Abaixo meu chapéu em sinal de uma humildade qualquer que não me pertence e me sento na ponta do balcão o mais distante da entrada possível, simplesmente por um instinto de exílio adquirido por força das circunstâncias.
 Conto a grana que quase não dará para o quarto de hotel. Faço as contas mentalmente de forma negligente demais para estarem certas e peço:
 "Um café e qualquer coisa de mais barato pra comer."
 "Vai um pão na chapa?" Responde o mais jovem dos dois rapazes que abriram a lanchonete há alguns minutos.
 "Pode ser." Respondo enquanto conto algumas moedas sobre o balcão.
 Não demora muito para que este mesmo rapaz, de avental preto e boné branco com o nome da lanchonete costurado em azul sobre a aba, me sirva o pedido, e eu termine a minha primeira refeição, e talvez única, do dia.
 Estou quase pronto para sair quando ouço o característico motor de uma Harley Davidson se aproximar e coloco-me automaticamente a procurá-la. Lá está, do outro lado do vidro que se estende atrás da única mesa do lugar, uma linda Fat Boy, contudo, estranhamente familiar. Faço uma busca rápida pela minha aterradora memória com o intuito de identificá-la o mais rápido possível, quando percebo um estalo característico no som do motor ao ser desligada.
 "Puta merda."
 O motociclista apoia sua máquina no estribo e, puxando dedo após dedo, retira sua luva de couro e guarda  ambas no bolso direito da jaqueta.
 "Não, não pode ser ele. É gordo demais. Provavelmente vendeu sua moto, nada mais. Seria muita falta de sorte, uma verdadeira piada do destino..." E então tenho os pensamentos calados pela brutalidade com que a realidade decepou minhas expectativas. O motociclista retira seu capacete escuro e desmascara a face envelhecida de um sujeito que conheci muito bem e que não vejo há alguns anos, mas que ainda manca como logo ao nos conhecermos. É ele. De brincos reluzentes e cabelos longos, ele entra na lanchonete. Seu nome é Samuel, um velho amigo com quem tive os laços cortados pelas escolhas que fiz.
 Coloco meus olhos sobre ele e imediatamente minha mente passa a deixar de estar tão vazia e é brutalmente inundada com lembranças. Seja lá quem for que esteja nas rédeas desse tal acaso escroto e miserável, eu não exitaria em atolar-lhe uma bala no cérebro! Aqui estou eu, na pequena cidade de Dois Vizinhos, tão conhecida pelos Brasileiros quanto a porra da face do maldito Carlos Adão, e ainda assim encontro Samuel.
   Anos atrás, eu estava indo para Florianópolis quando nossos destinos se cruzaram pela primeira vez. Não havia ninguém na estrada e eu estava acima da velocidade quando me deparei com um acidente envolvendo um Vectra e a caminhonete de Samuel logo após a curva. Surpreendido, tentei frear para não colidir com a caminhonete completamente amassada e o Vectra atravessado na pista, mas devido à instabilidade de uma motocicleta antiga, deslizei e fui lançado junto à minha maquina sobre o pasto, por sorte, mal cortado, já próximo do acidente. Levantei-me sem grande pressa enquanto um sujeito, que depois descobri ser o dono do Vectra, dizia meias palavras de forma ofegante, rápido demais para terem nexo. Ignorei em um primeiro momento, imaginando que poderia ser fruto de qualquer delírio do corte que escorria-lhe sangue por toda sobrancelha esquerda, entretanto, após pedir pra que ele falasse um pouco mais devagar, compreendi.
 "O... O cara..." Ele fazia curtos intervalos para poder realimentar seus pulmões que jorravam todo o ar vertiginosamente "... tá preso... na caminhonete."
 Resolvi ir até lá checar o estado de Samuel sem saber ao certo por que ele me avisou algo assim. Quero dizer, isso é coisa pros bombeiros ou pra policia, certo?  Coloquei-me sobre o asfalto novamente imaginando quanto dano a minha moto poderia ter sofrido quando reparei que minha perna estava em carne viva e não existia mais a perna esquerda da minha calça. A partir daí achei que talvez fosse melhor me focar no meu problema, no caso o dano que minha perna sofreu, mas o motorista do Vectra parecia realmente assustado então decidi dar uma olhada nisso primeiro.
 Acendi um cigarro e assim que me aproximei um pouco mais corri os olhos pela faixa dupla continua até a caminhonete e não precisei mais do que uma olhada com um pouco de atenção para notar a chama sobre o capô da caminhonete. Bom, acho que não preciso mencionar mais nada, né? Adrenalina.
 Eu me enfiei no meio daquele monte de pontas de metal disforme, cortando assim, suavemente meus braços, e o puxei de lá de dentro o mais rápido que pude. Infelizmente sua amada caminhonete rasgou profundamente sua perna direita da cintura até o tornozelo assim que eu o puxei.
 "Filho da puta!" Ele uivou cuspindo e rosnando, querendo me socar enquanto eu o tirava dali sem o cuidado exigido e descartado pela necessidade. Bem que todos diziam, inclusive Estela, que certas vezes Samuel era como um animal ferido.
 "O Samuca é  assim, ataca qualquer um para se proteger quando esta indefeso." Ela dizia com sua voz suave.
  Definitivamente essa foi a ilustração mais clara e literal dessa metáfora que já pude presenciar.
 Carreguei-o no colo, mas como eu também estava ferido não consegui nos afastar o suficiente e tive sérias queimaduras de terceiro grau. Ainda possuo, depois de tantos anos, estas marcas nas costas.
 A partir de então nos tornamos próximos, ele me ajudou a reconstruir minha motocicleta e consequentemente se apaixonou por isso. Ajudei-o a montar a dele meses depois e rodamos juntos por um longo tempo. Tivemos um negócio juntos e tivemos laços fortes que iam muito além da mera amizade. Definitivamente fomos bons amigos e temos varias outras histórias juntos, porém, bons amigos já não tem sido bem vindos faz algum tempo.

Um comentário:

nara disse...

muito bom saber que tenho um amigo escritor !
Parabéns Raul !
Um dia sua história se tornará um livro!!!
Amei !