sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Capítulo IV - Velhos amigos, certo?

 Abaixo meu chapéu, com a esperança de que ele não me veja. As chances são boas; cabelos longos, barba no rosto, posso estar irreconhecível, principalmente depois de sete anos. Ele parece distraído, pára próximo ao caixa, depois de cumprimentar com a cabeça um senhor que está pagando a conta, e, antes de fazer seu pedido, solta sua mão direita no ar, para que a gravidade faça seu trabalho, caindo com força sobre o superfície do balcão.
"Dá uma café aí pra me acordar que eu to me sentindo um maldito zumbi." e segue em direção ao banheiro, logo atrás de mim.
 Samuel sempre teve o hábito de virar a noite na estrada e descansar durante o dia, peculiaridade que, felizmente para época, compartilhávamos. O fato é que eu nunca tive certeza se foi um costume que ele ganhou ao me conhecer, ou que, na realidade, já sustentava há muito tempo. Entretanto uma coisa é certa: Esta semelhança nos poupou várias horas perdidas, presos no transito em feriados e fins de semana.
 Ganho alguma confiança ao vê-lo passar por mim, porém, algo soa estranho logo em seguida. Ainda de cabeça baixa, procuro pelo som da porta do banheiro, mas não consigo ouvi-la. Nem abrir-se nem fechar-se. Ouço a rodovia, o som da chapa da cozinha queimando qualquer coisa, a maquina de café enchendo o copo de Samuel, alguém assobiando uma canção irreconhecível provavelmente devido à inigualável destreza do músico desconhecido, um senhor abrindo um pacote de cigarros enquanto caminha para a saída, e até mesmo os estalos de amendoins sendo estraçalhados dentro da boca do rapaz encostado na geladeira de Coca-Cola a poucos metros de distância, mas nada do som da porta do banheiro.
 Então me dou conta do que vai acontecer quando ouço o som de botinas se aproximando.
 “Eagle!"
 Ele parece com raiva. Eu não o culpo.
 Ele grita com sua voz rouca de cigarros e whiskey. Santo Deus. Samuel me acusa o tempo todo enquanto ouço-o se aproximar, mas mesmo assim eu não me viro. Não sei ao certo se por vergonha do que fiz, ou se é simplesmente para simular indiferença. Acho mesmo é que não quero ver a dor com que ele transborda toda essa cólera, pois tudo o que ele diz, rosnando incansavelmente, me agride, me molesta, me machuca, e ainda assim, ele tem toda a razão e o direito de me odiar. Não quero que ele veja meu rosto, pois ele nunca mais o viu depois do que aconteceu. Eu sinto a culpa queimar-me por dentro a cada vez em que ele vociferava o nome de Estela. Eu mereço tal culpa. Sinto cada pesar de suas palavras e de seu rancor. Cada acusação como um soco bem no meio de meu rosto. E ele ainda é o mesmo Samuel que conheci há anos, apenas eu é que não sou o mesmo Richard.
 Ele esbraveja com o valor da razão mas me acusa de coisas que eu não fiz. Isso me incomoda, mas ninguém em minha posição tem o direito de reivindicar a verdade concreta. São mentiras, mas reflexos de uma verdade central, e essa... Bom, essa me condena por qualquer outra acusação
 As pessoas da lanchonete sussurram e arregalam os olhos ao ver quem realmente sou. Todos me julgando, se não com seus mal mascarados murmúrios, em seus pensamentos. Sinto como se eu pudesse ouvir cada um deles:
“Ele é um monstro!"," Como teve coragem?”, “Eu não acredito.” , “Quem ele pensa que é para ser tão indiferente?”
 Tudo volta a ter cheiro de sangue, gosto de ferro, textura de fogo, cor de cinzas e som de chuva. Sento-me como naquela noite, exatamente da mesma maneira, como se o tempo não tivesse passado e meu corpo não tivesse envelhecido. E isso tudo acontece em um daqueles breves momentos que se estendem incompreensivelmente; você provavelmente os conhece.
 Samuel me puxa pelo ombro esquerdo e a única coisa que ele não poderia ter feito era encostar em mim. Ele é grande, e se tem algo que aprendi durante a minha vida é que se alguém tem que dar o primeiro soco de uma briga, que seja você. Feito isso, meu punho tomou a direção devida quase instintivamente, me fazendo assinar a minha confissão de culpa, bem no nariz dele. Eu não queria ter feito isso, mas eu sei que se ele pudesse, ele me mataria. E isso era exatamente o que ele ia fazer se eu não o lançasse contra lona.
 Finalmente estou voltado pra ele, vendo-o deitado com as mãos sobre o nariz com a cara cheia de sangue. Eu o atingi com toda a minha força, mas ele é resistente e sabe brigar. Da indícios de que vai se levantar e então impeço-o com um chute nas costelas, mais uma vez com toda a minha força, e então ele volta pro chão.
 "Seu..." Vejo-o fazer os intervalos exigidos pela dor. "...Seu filho da puta..."
 "Desculpe por isso, Samuel" Digo enquanto abro minha carteira.
 "Você...acha... que só porque a policia parou de te procurar eu vou deixar... uff... barato, seu merda?"
 "Não, cara, tenho certeza que não. Exatamente nesse momento..." Digo ao ver o cozinheiro usando o celular enquanto me olha com um ar de horrorizado "... o rapaz ali está chamando a policia, e eles terão uma nova pista sobre o meu paradeiro. É só questão de tempo."
 Viro-me em direção à saída quando me lembro que tenho uma nota de dois reais em mãos.
 "Ah! Quase me esqueci." Disse colocando a nota sobre o balcão. "Eu pago seu café."
 Nesse instante eu noto, enquanto ele tenta se levantar, seus olhos completamente vermelho, lacrimejando. Ele chorava enquanto cuspia mal-dizeres. Como poderia não chorar?
 Abaixo meu olhar e tento não atolar-me em nenhum lamaçal de consciência. Eu preciso sair daqui e minhas pernas parecem compreender essa necessidade; fazem quase todo o trabalho sozinhas enquanto solto um último lamento patético e de pouco significado para Samuel:
 "Desculpe mesmo. Eu sinto muito, amigo. Sinto muito."

Um comentário:

...Dave... disse...

aaaah, cara qm éh realmente esse cara?