sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Capítulo VII - Cobrando favores de um pervertido


 Confiro o número da casa e o alívio trata de apagar o amargor dos quilômetros que ganhei na sola de minha bota. Morrem as hipérboles na memória e, olhando agora, pouco me incomodam essas três horas sob o vento gelado. Dou as costas para a casa rendendo-me ao desejo incontrolável de fumar enquanto analiso despretensioso a calçada do lado de lá; um morador de rua se encolhe trêmulo buscando abrigar-se do frio, enrolado a uma manta suja. Meu peito ofegante responde com suor gelado, sob o tecido, ao vento úmido que chegara sem aviso.
 "Frio e solidão, meu chapa. É o que tem pro jantar essa noite." Digo sentindo um misto de pena e de identificação, como se ele pudesse me ouvir. Pena e identificação? Auto-piedade. Resta então, apenas asco dessa sensação deprimente.
 Os curitibanos foram castigados por um calor incomum durante o dia e, agora, no dobrar da primeira hora da manhã, o frio impõe suas vestes. Eu, com o busto arfante de toda a caminhada, sofro com esses panos de inverno.
 O tabaco queima e  meu coração finalmente retoma o ritmo comum de trabalho. Prendo o cigarro por entre os lábios, apoio minhas mãos por sobre o muro baixo, jogo minhas pernas pra o outro lado e, sem notar onde exatamente faria meu pouso atrapalhado, acabo acomodando os saltos de minha bota por sobre as tulipas de Gregório. Um certo remorso me toma, do  tipo que provavelmente se sente ao ouvir o alarme do banco disparar antes de conseguir abrir o cofre.
 "Ele vai querer me matar..."
 Cruzo o restante do Jardim divagando comigo mesmo sobre a peculiaridade de um homem como Gregório ter como hobbie a jardinagem. E ainda mais peculiar, definitivamente estúpido, é o fato dele manter costumes como este: Ajoelho-me em frente ao carpete, já diante da porta dos fundos, e puxo debaixo do mesmo a chave que me dá acesso a sua pequena moradia.
 Nota-se, logo de primeira vista, que a casa é bem antiga. Os arcos na varanda da entrada, os muros baixos, o portão de aço enferrujado com detalhes talhados, toda ela é composta por uma arquitetura de outro tempo, sem a pretensão comum atual de fazer-se ilha. Cercar-se de arames e muros em prol de qualquer falsa segurança que acalma as almas temerosas do século XXI.
  A porta dos fundos coloca-me sob a luz da cozinha que Gregório deixa acesa para simular sua presença a qualquer um que não o conheça minimamente. Há um cheiro forte de charutos e cigarros pela casa. Latas de cerveja descansam por sobre o piso carpetado, cheio de manchas, que se estende da cozinha até a sala, acomodações estas divididas apenas pelos restos de uma parede derrubada.O relógio na parede da cozinha me diz que fazem mais de dezoito horas que não me alimento, e a fome, já a roer-me as vísceras, intensifica seus protestos. Na geladeira: Ovos, restos de um marmitex de sabe-se lá quando, várias latas de Brahma e, por sorte, um pacote de lasanha congelada que faz minha noite.
  Na sala, algo me chama atenção entre os sofás rasgados e a poltrona velha. Será? Não pode ser. Lá está, encostada ao suporte, um item inusitado cujos olhos não deito há anos. Seria mesmo ela? Aproximo-me do instrumento inteiramente surpreso. Ela está surradinha; o braço bem empenado e a madeira cheia de marcas de colisões desastrosas. Passo os dedos para tirar a poeira e a certeza se faz:
 "Não acredito." É a velha Les Paul de Gregório!
 Eu me lembro dos velhos churrascos na casa do Mike, onde Greg ligava essa belezinha e tocava aquele clássico Flamenco que ele adorava. Como se chamava? Busco pelo nome do compositor, pois algo me dá certeza de que não lembrarei do nome da música. A melodia vaga pela minha memória. Mantenho-me ferrenho no encalço do enigma, que parece fazer piada de meus esforços ao permanecer sob a sombra que o oculta. Incumbido pelo pior tipo de mistério - aquele que constrói-se debaixo de seu nariz, coberto pela camuflagem de nossa própria falta de tato e percepção - cruzo os cômodos da casa sem uma finalidade clara e, se não fosse pela preguiça que desanimou-me e desarmou o orgulho ferido que tinha-me como um títere em mãos, eu teria revirado toda a coleção de discos do Gregório até encontrar o maldito nome do compositor.
  Cansado, chego ao quarto de Gregório. Cortinas azuis, paredes vermelhas, uma cama grande e completamente desarrumada, mais latas de cerveja vazias e um cheiro fortíssimo de sexo. A vontade de me estirar em sua cama acaba aí. Há também um criado-mudo ao lado de sua cama contendo um maço de papeis, uma garrafa de whiskey pela metade e uma caixa de madeira. Um sorriso ganha-me as faces e acomoda-se por entre as maçãs de meu rosto involuntariamente.
 "Era tudo o que eu precisava."
 Pego a caixa e a garrafa, acomodo-as sobre a mesa de centro da sala. Sinto meus músculos relaxarem ao me esticar sobre a poltrona. A caixa de madeira guarda - como sempre - alguns charutos que não abro mão. Acendo-o sobre a chama do isqueiro. Mais um sorriso me estranha a face com o prazer nostálgico. "Use fósforos pra acender meus charutos se não quiser acabar com eles enfiados na bunda." Repito em voz baixa, comigo mesmo, a frase que Gregório dizia quando, desatento, acendia o charuto que me concedia, com o costume mecânico de acender cigarros.
 Agressivo, pervertido, desleixado, mas ainda assim, um sujeito extremamente sensato. Para mim e para os rapazes da antiga, ele sempre foi um sujeito sábio. Apesar de tudo, e mesmo com os anos que nossa amizade carrega, ainda guardo-o dessa forma na memória; um sujeito sábio, com certeza! Apesar de tudo.
 O sono me toma de leve. Afundo-me na poltrona de couro e tomo a última dose que a garrafa pode me oferecer. A sala permite que as luzes da rua deitem-se por sobre o seu piso e a luz da cozinha pisca por algumas vezes até se apagar. Meu corpo já está dormente, meus sentidos comprometidos; espero que o álcool me proporcione o sono que preciso.

                                                            

                                    
                                                  *              *              *


 Acordo de um sono sem sonhos com um grito. Um grito familiar que reconheço ser apenas uma recordação antiga a pregar-me outra peça com ajuda de Morfeu. Culpa e saudade, apenas.
 Quanto tempo dormi? Meus sentidos me dizem que não mais do que alguns minutos, entretanto, estou sóbrio novamente. O relógio da cozinha mais uma vez me traz à realidade das rotinas, algo que já não estou mais familiarizado, e revela o verdadeiro número de horas que estive entregue ao subconsciente. Duas horas de sono ininterruptas, algo incomum pra mim. O ponteiro dos minutos mal se move quando ouço, finalmente, o barulho do portão. Acendo outro charuto e observo Gregório abrir a porta da frente, entrar, trancá-la novamente. A certeza de que ele ainda não me viu, sob a penumbra, proporciona-me o tipo de prazer que se tem um jogador amador de xadrez, ao ver seu oponente, exímio na arte que lhe falta, fazer um movimento que lhe renderá a vitória.
 "Se você comeu a minha lasanha congelada, está encrencado, rapaz." Agora imagine minha decepção ao ouvi-lo desmantelar minha certeza.
 "Por onde tem andado, seu miserável?" Pergunto ao vê-lo cruzar a sala, pegar uma cerveja e se sentar no sofá a minha frente.
 "Porra! Pelas redondezas, fazendo pequenos trabalhos de jardinagem, ganhando o suficiente pra me alimentar, pagar as contas da casa, e sustentar as prostitutas."
 Sorrio. Como eu disse, um pervertido.
 "E você, Richard? Não nos vemos há anos."
 "Eu tenho estado por aí. 'Em toda parte e em lugar nenhum.'"
 Ele ri com sua voz grave e rouca, levanta a lata de cerveja e repete nosso velho lema sob um interpretação eloquente!
 "'Em toda parte e em lugar nenhum!'" Sua risada e voz preenchem todo o local."Que tempo eram aqueles!"
 Termina a lata em um último gole, amassa e lança-a para qualquer canto da sala. Sua expressão torna-se grave ao se levantar e dar-me as costas em direção à cozinha.
 "Que merda de cicatrizes são essas nos seus pulsos?"
 "Eu não tentei me matar, se é o que pensa..."
 "Eu reconheço cicatrizes de algemas, meu velho. É daquela noite?"
 "Infelizmente, mais uma lembrança."
 "A polícia te deu uma surra e te deixou livre? Não entendo." Perguntou confuso abrindo a geladeira.
 "Quem me dera tivesse sido a polícia."
 Por trás da porta da geladeira, abrindo mais um lata de cerveja:
 "Eu já sei sobre seu reencontro com Samuel..." Um silêncio se fez. "Eu passei trinta minutos no telefone com ele me dizendo que eu era cúmplice de tudo, que te defender era manchar minhas mãos com o sangue dele, e mais um monte de merdas!"
 "Você sabe que eu sempre achei isso besteira! Eu conheci aquele merda do Thomas! Aliás, hoje acho que todos conhecem. Eu sempre estive do seu lado, cara! Pelo que você fez por mim! Agora me diga, Richard, como diabos você quer que eu acredite na sua inocência depois de hoje?"
 Apago o charuto no cinzeiro e encaro-o nos olhos.
 "Eu não quero."
A decepção estampa-se no rosto de meu velho amigo.
 "Eu vim cobrar um favor."
Gregório entra no corredor e volta de seu quarto com o monte de folhas que vi sobre seu criado-mudo.
 "Eu sei." E diz jogando-as sobre meu colo. Um manual antigo de sua Panhead 1969.
 "Tá na garagem. Passei muito tempo trabalhando nela pra que ela pudesse voltar pra estrada. Tive que importar algumas peças também. Ela tá pronta. Pega a grana que deixei na cozinha  junto com as chaves e dê o fora. A policia já deve estar chegando." Diz entrando no banheiro.
 Pego o dinheiro, mil reais, mais as chaves da motocicleta.
 "Ei! Richard!" Ele grita lá de dentro. "Estamos quites. Faça-me o favor de nunca mais voltar."

sábado, 10 de março de 2012

Capítulo VI - Mergulho à pequena Atlântida de Mauro


 Desço do caminhão em Curitiba, com um número de telefone em mãos. O caminhoneiro disse se chamar Augusto, e deixou-me o número de seu celular, para o caso de eu mudar de ideia a respeito de seu convite para tomar uma cerveja e conhecer umas garotas. Sujeito simpático, o que delata os poucos anos vividos. Jovens. Costumam aprender a serem menos receptivos com o desenrolar da vida, e ela, sádica que só, guarda uma perversidade especial para os que não aprendem. Contudo, eu só sei disso devido à observação que fiz, por todos estes anos, dos desavisados. Eu mesmo não me lembro de um dia ter sido receptivo, de fato.
 Estive aqui algumas vezes, e conheço apenas os bairros nobres da Cidade devido às viagens que fiz, em sua grande maioria, a trabalho. Batel, Água Verde, Ecoville. Gregório se mudou pra Curitiba alguns meses depois que eu "deixei" esse trabalho e, desde então, a única coisa de que tenho certeza é que ele está em algum lugar entre os limites desse distrito, e conhecendo-o como um dia conheci, definitivamente não seria em nenhum destes bairros nobres. Rio comigo mesmo ao me lembrar da falta de aptidão para com qualquer estilo de vida que sugerisse manter suas camisas desencardidas e limpas de graxa e óleo. Porém, ainda assim, há alguns poucos lugares na cidade em que passamos durante as vezes em que viemos de motocicleta, juntos, para Curitiba. É, acho que conheço alguém que certamente sabe onde ele está.
 Cruzo alguns quarteirões buscando a placa certa. Entro na Rua Amazonas sem saber exatamente em que altura dela chegarei em meu objetivo, e isso se ele ainda existir, é claro. Já faz muito tempo. Ando mais alguns minutos até me deparar com um montante de motocicletas estacionadas dos dois lado da rua. Elas se estendem por vários metros e seus donos parecem ter um só objetivo: O bar de esquina. Os muros baixos, pintados de vermelho e amarelo, permitem que o som de "Old Man", na voz de um estranho qualquer, se propague pelo quarteirão, o que parece fazer com que muitos dos visitantes de coletes de couro ocupem as calçadas e bebam até mesmo em cima das próprias motocicletas. Cruzo vários destes "motociclistas bem sucedidos" e acendo um cigarro debaixo do estandarte, quase como uma bandeira hasteada, sustentando um escudo branco, atravessado, pela frente, por uma faixa marrom clara, com o nome do bar e, por trás, cruzado por duas espadas.
 Observo as Harleys estacionadas enquanto a brasa luta para chegar ao filtro. Dynas, Sportsters e Softais atuais em sua grande maioria. Uma ou outra Electra, também atuais, e três Fat Boys da linha especial de 2010. Contudo, algo no meio desse aglomerado de maquinas calouras me chama a atenção. Uma ShovelHead Bobber de - Santo Deus, mas que ano de ouro - 1969. Me aproximo dela e toco de leve o tanque preto com manchas bronze. Que dinossauro magnífico! Termino o cigarro, ainda invejando o Dono de tal alazão, e dirijo-me ao interior do bar.
 Atravesso o salão e encosto-me próximo à geladeira. Tendo notado que não há ninguém atrás do balcão em que me debruço, decido simplesmente aguardar. A lembrança de nossa primeira tarde aqui agarra-se fortemente aos lobos temporais de meu cérebro. Samuel, Gregório, Eu e o velho Zebu entramos em um briga boa com sete babacas aquela tarde. Tomamos uma surra terrível, mas nenhum de nós beijou a lona sem um belo sorriso ensaguentado estampado na cara. Além do mais, aquele cinquentão do Zé Burla quebrou o braço de um dos maricas em três lugares, isso antes mesmo de perder o primeiro dente. Mais uma vez sorrio ao lembrar daqueles três miseráveis no chão, juntos a mim, como se fossemos amigos de infância, tomando o maior cacete do século. Bons tempos. Ouvi dizer que Zebu morreu de enfarte há cinco anos. Aquele velho teimoso nunca tomava direito seus remédios. Mas era um bom homem.
 Tento evitar me perder no tempo, uma vez mais, observando as espadas penduradas horizontalmente na parede, todas apontadas para o mesmo lado, em seguida meus olhos correm até os copos pendurados de ponta-cabeça sobre mim e atento-me à uma gota de água que escorre-lhe de dentro até o limiar da superfície translúcida. Neste ponto ela se estica devagar, dependurada pela sutil ponte de hidrogênio. Ela depende disso para continuar intacta. É inútil tentar evitar atribuir-lhe vida, e até mais inútil lutar contra a tensão ao vê-la deslizar alguns milímetros pela superfície da borda de vidro. Vamos, vamos, você consegue! Ela se estica mais um pouco. Vamos, não morra, sua escrota! Você consegue! Tenta se estabilizar, com alguma dificuldade. Ainda se estica um pouco, mas finalmente fica estática. Veja só. Lá está ela; a gota, no limite de sua existência, insípida sim, mas apesar disso, jamais entregue à passividade.
 Eu sou a gota. Ela escorreu velozmente até o último circulo de seu próprio inferno. Não há mais lugar para ela no universo a não ser que ela sobreviva às circunstâncias, e imponha-se sobre a própria morte, de forma que possa se manter existindo, mesmo que de fronte para sua aniquilação. Estou profundamente orgulhoso de mim mesmo, mas estranhamente, de um eu-gota, jamais um eu-Richard. Um eu-Richard nunca foi digno de orgulho algum. Toco com o indicador no copo e a gota cai.
 "Pronto. Fim da crise existencial."
 "O que disse senhor?"
Estava tão distraído que mal pude notar a chegada do atendente.
 "Hã?" Tal resposta automática me escapa da garganta, esquiva às contenções comuns da consciência, e pede qualquer remendo imediato. "Eu disse que quero uma bebida, ainda servem a Santo Grau?"
 "Servimos, sim."
 Se há algo de que Mauro sempre se gabou, foi de suas Cachaças. E não é por menos. Admito adorá-las.
 Tomo mais algumas doses e assisto a banda terminar de tocar enquanto a tarde cai devagar. Deixo as horas rodarem enquanto bebo uma cerveja atrás da outra. Vi Mauro cruzar o salão algumas vezes, mas preferi esperar, não tenho pressa e prefiro conversar com ele em particular. Mergulho nas imagens de um passado agiota, que a bebida desenterra com classe, e quando noto, Mauro está ao meu lado, de pé, altivo, com um revolver intencionalmente à mostra. Já são dez horas e o bar está deserto.
 "Você tem um garoto e tanto aí, ein bonitão?" Digo, com um sorriso irônico, pouco antes de esvaziar a garrafa em mãos.
 "Quem vai pagar seu consumo?" Disse impondo-se. Imagino que ele tenha um prazer especial em atuar dessa forma com caloteiros. Entretanto, o revolver é um exagero para tal cobrança. Ele deve ter ouvido a meu respeito. A mídia não é mesmo magnífica?
 "O Gregório, é claro." Digo expressando certa obviedade ao franzir o rosto.
 "Achei que estivesse morto. O que faz aqui?" Questionou-me imperativo, se impondo como me lembro que costumava fazer quando via que as coisas iam sair do controle dentro de seu significante feudo.
 "Quem me dera, amigo..." Digo pegando mais um cigarro do maço que tenho fumado durante a tarde toda. Mantenho-o entre os lábios sem nem mesmo pegar o isqueiro, pois sei que, se acendê-lo, Mauro vai me enfiar a mão na cara. Ele detesta ser desrespeitado dentro de seu domínio. "... Quem me dera. Olha, eu não to procurando encrenca. Escreve o endereço do Gregório em um papel e me dá que eu saio daqui agora mesmo."
 "E como vou saber que eu não to jogando ele pros lobos?" Diz com um sotaque cantado, tradicional dos sulistas, e que, se não me falha a memória, ele não o tinha de forma tão acentuada quando o conheci. A despeito disso, sua arma parece se encaixar bem melhor neste perfil Mauro-justiceiro, do que no simples Mauro-não-vendo-fiado.
 "Porque diabos eu foderia o único sujeito na face da terra que acredita na minha inocência?" Digo enquanto guardo o maço com cuidado para não estragar com o último cigarro que há contido nele.
 "Talvez porque ele esteja errado."
 "E você acredita em tudo o que dizem por aí?"
 Um silêncio se fez. Mauro tira o revolver calibre 38 da calça e, apontado para baixo, o engatilha. Isso é como truco, é preciso saber blefar. Eu não sei quão bom nisso Mauro é, mas estou colocando todas as minhas fichas em uma única carta. Gregório é o sujeito mais sensato que já conheci em toda a minha vida. Ele sabe ponderar cada sentimento, estudar cada ponto de uma situação. Ele é, apesar de cabeça-dura, muito racional. Se Mauro souber disso tanto quanto eu, ele me dará o endereço e evitará problemas.
 "Muito bem." Diz colocando seu brinquedinho sobre a mesa. Ele escreve o endereço em uma pequena folha de caderno, a rasga, e me entrega, exigindo-me que não volte à aparecer em seu limitado império. Aceito a condição, e, apenas por diversão, vejo-o ranger os dentes quando acendo o cigarro, ainda sob as telhas de sua autoridade. Viro as costas e saio de lá, enfiando o papel no bolso da calça, e satisfeito por saber que o superestimei. Acreditei mesmo que levaria aquele soco, nem que fosse pelas costas, antes de sair de seu bar.
 Ando alguns quarteirões, analiso a nota que Mauro me fez e peço informação para um rapaz no ponto de ônibus. Tomo fôlego após a que me foi fornecida. Pelo visto terei que cruzar metade da cidade a pé.