sábado, 10 de março de 2012

Capítulo VI - Mergulho à pequena Atlântida de Mauro


 Desço do caminhão em Curitiba, com um número de telefone em mãos. O caminhoneiro disse se chamar Augusto, e deixou-me o número de seu celular, para o caso de eu mudar de ideia a respeito de seu convite para tomar uma cerveja e conhecer umas garotas. Sujeito simpático, o que delata os poucos anos vividos. Jovens. Costumam aprender a serem menos receptivos com o desenrolar da vida, e ela, sádica que só, guarda uma perversidade especial para os que não aprendem. Contudo, eu só sei disso devido à observação que fiz, por todos estes anos, dos desavisados. Eu mesmo não me lembro de um dia ter sido receptivo, de fato.
 Estive aqui algumas vezes, e conheço apenas os bairros nobres da Cidade devido às viagens que fiz, em sua grande maioria, a trabalho. Batel, Água Verde, Ecoville. Gregório se mudou pra Curitiba alguns meses depois que eu "deixei" esse trabalho e, desde então, a única coisa de que tenho certeza é que ele está em algum lugar entre os limites desse distrito, e conhecendo-o como um dia conheci, definitivamente não seria em nenhum destes bairros nobres. Rio comigo mesmo ao me lembrar da falta de aptidão para com qualquer estilo de vida que sugerisse manter suas camisas desencardidas e limpas de graxa e óleo. Porém, ainda assim, há alguns poucos lugares na cidade em que passamos durante as vezes em que viemos de motocicleta, juntos, para Curitiba. É, acho que conheço alguém que certamente sabe onde ele está.
 Cruzo alguns quarteirões buscando a placa certa. Entro na Rua Amazonas sem saber exatamente em que altura dela chegarei em meu objetivo, e isso se ele ainda existir, é claro. Já faz muito tempo. Ando mais alguns minutos até me deparar com um montante de motocicletas estacionadas dos dois lado da rua. Elas se estendem por vários metros e seus donos parecem ter um só objetivo: O bar de esquina. Os muros baixos, pintados de vermelho e amarelo, permitem que o som de "Old Man", na voz de um estranho qualquer, se propague pelo quarteirão, o que parece fazer com que muitos dos visitantes de coletes de couro ocupem as calçadas e bebam até mesmo em cima das próprias motocicletas. Cruzo vários destes "motociclistas bem sucedidos" e acendo um cigarro debaixo do estandarte, quase como uma bandeira hasteada, sustentando um escudo branco, atravessado, pela frente, por uma faixa marrom clara, com o nome do bar e, por trás, cruzado por duas espadas.
 Observo as Harleys estacionadas enquanto a brasa luta para chegar ao filtro. Dynas, Sportsters e Softais atuais em sua grande maioria. Uma ou outra Electra, também atuais, e três Fat Boys da linha especial de 2010. Contudo, algo no meio desse aglomerado de maquinas calouras me chama a atenção. Uma ShovelHead Bobber de - Santo Deus, mas que ano de ouro - 1969. Me aproximo dela e toco de leve o tanque preto com manchas bronze. Que dinossauro magnífico! Termino o cigarro, ainda invejando o Dono de tal alazão, e dirijo-me ao interior do bar.
 Atravesso o salão e encosto-me próximo à geladeira. Tendo notado que não há ninguém atrás do balcão em que me debruço, decido simplesmente aguardar. A lembrança de nossa primeira tarde aqui agarra-se fortemente aos lobos temporais de meu cérebro. Samuel, Gregório, Eu e o velho Zebu entramos em um briga boa com sete babacas aquela tarde. Tomamos uma surra terrível, mas nenhum de nós beijou a lona sem um belo sorriso ensaguentado estampado na cara. Além do mais, aquele cinquentão do Zé Burla quebrou o braço de um dos maricas em três lugares, isso antes mesmo de perder o primeiro dente. Mais uma vez sorrio ao lembrar daqueles três miseráveis no chão, juntos a mim, como se fossemos amigos de infância, tomando o maior cacete do século. Bons tempos. Ouvi dizer que Zebu morreu de enfarte há cinco anos. Aquele velho teimoso nunca tomava direito seus remédios. Mas era um bom homem.
 Tento evitar me perder no tempo, uma vez mais, observando as espadas penduradas horizontalmente na parede, todas apontadas para o mesmo lado, em seguida meus olhos correm até os copos pendurados de ponta-cabeça sobre mim e atento-me à uma gota de água que escorre-lhe de dentro até o limiar da superfície translúcida. Neste ponto ela se estica devagar, dependurada pela sutil ponte de hidrogênio. Ela depende disso para continuar intacta. É inútil tentar evitar atribuir-lhe vida, e até mais inútil lutar contra a tensão ao vê-la deslizar alguns milímetros pela superfície da borda de vidro. Vamos, vamos, você consegue! Ela se estica mais um pouco. Vamos, não morra, sua escrota! Você consegue! Tenta se estabilizar, com alguma dificuldade. Ainda se estica um pouco, mas finalmente fica estática. Veja só. Lá está ela; a gota, no limite de sua existência, insípida sim, mas apesar disso, jamais entregue à passividade.
 Eu sou a gota. Ela escorreu velozmente até o último circulo de seu próprio inferno. Não há mais lugar para ela no universo a não ser que ela sobreviva às circunstâncias, e imponha-se sobre a própria morte, de forma que possa se manter existindo, mesmo que de fronte para sua aniquilação. Estou profundamente orgulhoso de mim mesmo, mas estranhamente, de um eu-gota, jamais um eu-Richard. Um eu-Richard nunca foi digno de orgulho algum. Toco com o indicador no copo e a gota cai.
 "Pronto. Fim da crise existencial."
 "O que disse senhor?"
Estava tão distraído que mal pude notar a chegada do atendente.
 "Hã?" Tal resposta automática me escapa da garganta, esquiva às contenções comuns da consciência, e pede qualquer remendo imediato. "Eu disse que quero uma bebida, ainda servem a Santo Grau?"
 "Servimos, sim."
 Se há algo de que Mauro sempre se gabou, foi de suas Cachaças. E não é por menos. Admito adorá-las.
 Tomo mais algumas doses e assisto a banda terminar de tocar enquanto a tarde cai devagar. Deixo as horas rodarem enquanto bebo uma cerveja atrás da outra. Vi Mauro cruzar o salão algumas vezes, mas preferi esperar, não tenho pressa e prefiro conversar com ele em particular. Mergulho nas imagens de um passado agiota, que a bebida desenterra com classe, e quando noto, Mauro está ao meu lado, de pé, altivo, com um revolver intencionalmente à mostra. Já são dez horas e o bar está deserto.
 "Você tem um garoto e tanto aí, ein bonitão?" Digo, com um sorriso irônico, pouco antes de esvaziar a garrafa em mãos.
 "Quem vai pagar seu consumo?" Disse impondo-se. Imagino que ele tenha um prazer especial em atuar dessa forma com caloteiros. Entretanto, o revolver é um exagero para tal cobrança. Ele deve ter ouvido a meu respeito. A mídia não é mesmo magnífica?
 "O Gregório, é claro." Digo expressando certa obviedade ao franzir o rosto.
 "Achei que estivesse morto. O que faz aqui?" Questionou-me imperativo, se impondo como me lembro que costumava fazer quando via que as coisas iam sair do controle dentro de seu significante feudo.
 "Quem me dera, amigo..." Digo pegando mais um cigarro do maço que tenho fumado durante a tarde toda. Mantenho-o entre os lábios sem nem mesmo pegar o isqueiro, pois sei que, se acendê-lo, Mauro vai me enfiar a mão na cara. Ele detesta ser desrespeitado dentro de seu domínio. "... Quem me dera. Olha, eu não to procurando encrenca. Escreve o endereço do Gregório em um papel e me dá que eu saio daqui agora mesmo."
 "E como vou saber que eu não to jogando ele pros lobos?" Diz com um sotaque cantado, tradicional dos sulistas, e que, se não me falha a memória, ele não o tinha de forma tão acentuada quando o conheci. A despeito disso, sua arma parece se encaixar bem melhor neste perfil Mauro-justiceiro, do que no simples Mauro-não-vendo-fiado.
 "Porque diabos eu foderia o único sujeito na face da terra que acredita na minha inocência?" Digo enquanto guardo o maço com cuidado para não estragar com o último cigarro que há contido nele.
 "Talvez porque ele esteja errado."
 "E você acredita em tudo o que dizem por aí?"
 Um silêncio se fez. Mauro tira o revolver calibre 38 da calça e, apontado para baixo, o engatilha. Isso é como truco, é preciso saber blefar. Eu não sei quão bom nisso Mauro é, mas estou colocando todas as minhas fichas em uma única carta. Gregório é o sujeito mais sensato que já conheci em toda a minha vida. Ele sabe ponderar cada sentimento, estudar cada ponto de uma situação. Ele é, apesar de cabeça-dura, muito racional. Se Mauro souber disso tanto quanto eu, ele me dará o endereço e evitará problemas.
 "Muito bem." Diz colocando seu brinquedinho sobre a mesa. Ele escreve o endereço em uma pequena folha de caderno, a rasga, e me entrega, exigindo-me que não volte à aparecer em seu limitado império. Aceito a condição, e, apenas por diversão, vejo-o ranger os dentes quando acendo o cigarro, ainda sob as telhas de sua autoridade. Viro as costas e saio de lá, enfiando o papel no bolso da calça, e satisfeito por saber que o superestimei. Acreditei mesmo que levaria aquele soco, nem que fosse pelas costas, antes de sair de seu bar.
 Ando alguns quarteirões, analiso a nota que Mauro me fez e peço informação para um rapaz no ponto de ônibus. Tomo fôlego após a que me foi fornecida. Pelo visto terei que cruzar metade da cidade a pé.

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